Olhar de Cinema – Day 1

Festival Internacional de Curitiba abre com filmes clássicos de John Cassavetes
“Falaí rapeize”! Essa semana, inspirado pelo Festival de filmes independentes que está rolando na nossa milagrosamente ensolarada Curitiba, resolvi dar uma de gordo cabeçoide e escrever alguns artigos sobre os filmes “cult no último” que agendei pra assistir.
Hoje, 29 de Maio, primeiro dia do festival, fui na sessão dupla de filmes do John Cassapivetes que rolou na Cinemateca: Noite de Estréia – “Opening Night” de 1978 seguido pelo longa de estréia dele como diretor “Shadows” de 1959 (ou 57 dependendo da versão).
Meu parecer geral: Chato a princípio, mas com alguns momentos de brilhantismo (principalmente em Noite de Estréia), fora, claro, o valor histórico imprescindível desses filmes.

Mas quem é esse Bagual? Nunca ouvi falar nem estou interessado, sai daqui seu gordo mala… 

John Cassavetes (1929 – 1989) é considerado pelos cineastas “indies” o pai do cinema independente norte-americano. Como ator ele é mais conhecido como o marido de Mia Farrow a polaca pancada que se juntou com o Woody Allen e depois foi trocada pela sua filha adotiva  em “O Bebê de Rosemary” de Roman Polanski (1968), lembra?

Cassavetes financiou seus doze filmes em parte com o que ele recebia em Hollywood por suas atuações  ou através de participações biscates em programas de TV diversos como o “The Lloyd Bridges Show”. Foi no final da década de 50, que juntando uma graninha aqui, chamando uma galera bem disposta ali, roubando um pedaço de rolo de película acolá que ele filmou com uma câmera 16mm na mão (literalmente) e uma idéia na cabeça (por que roteiro não existia ….sério….era tudo de improviso) o seu filme de estréia: “Shadows” – Sombras
Além do fato de ser um filme, financiado por um ator, com ânsias de botar na tela sua própria visão de mundo e inspiração artística, o filme foi marcante e garantiu seu lugar na história do Cinema, também, por diversos outros motivos: 

– Tratou com crueza o tema do preconceito racial, de uma maneira “direta demais” até para os padrões de hoje. 
– Os irmãos protagonistas do filme eram atores negros, algo definitivamente nada usual em tempos de ebulição anunciada dos conflitos raciais nos EUA. 
– O esquema de produção informal se distanciava e afrontava o sistema de estúdios da época. 
– A trilha sonora, totalmente tomada por experimentações com jazz (composta por Charlie Mingus e interpretada por Shafi Hadi) foi outro ponto de destaque. 
– Por fim, o naturalismo com que as imagens foram capturadas, externas reconhecíveis de Nova York, filmadas sem nada do aparato técnico hollywoodiano padrão, deu origem a um estilo hoje mais que reciclado de filmagem casual, tremida, absorvida por grandes produções com o passar dos anos.
O problema é que esse filme, é muito, mas MUITO mais interessante como uma peça de história do cinema do que como uma narativa do movimento beatnik da década de 50 em New York City, que é ao que ele se propõe a ser, mas levemos em conta que estamos diante de um filme com atores ainda amadores onde o não-roteiro do mesmo depende cem por cento da capacidade de improvisação dos mesmos. Infelizmente as performances são, nesse caso, inexpressivas e limitadas – apesar de ter me encantado com a Lelia Goldoni, protagonista feminina da película.

Some-se a isso a inexperiência de Cassavetes como diretor, um orçamento limitado e o fato de que o filme teve que ser totalmente refilmado, uma vez que a primeira versão (de 1957) morreu na praia logo após as primeiras exibições rechaçadas do mesmo. Considere que você tem um filme de roteiro germinal, com ares de inacabado e tramas com rumos pitorescos. Os enquadramentos são amadores e ocasionais, imagens desfocadas quando percebe-se que não há razão artística alguma para tanto, era simplesmente uma limitação do diretor que posteriormente foi absorvida como estilo. Não estamos falando de uma tentativa de construção de um estilo ou linguagem, é notável que são falhas reais uma vez que elas não se repetem ao longo do filme tampouco estão inseridas no contexto da cena ou da tentativa de enfatizar algum sentimento ou ação com um enquadramento bizarro.
Mas vamos falar de coisa boa!  A piadinha da Tekpix já cansou Gordo, pensa em outra coisa 
O roteiro, ou a falta dele, acabou trazendo alguns bons momentos e algumas resoluções que soam ousadas para os padrões classicistas do cinema de hoje. A abordagem do racismo vai direto ao ponto. A reação do homem branco ao descobrir que a amada é irmã de dois negros causa repulsa aos padrões atuais. Mesmo nos filmes que hoje tratam do racismo na mesma época, as reações não são tão cruas e fortes como visto aqui. O rapaz desmonta, perde o rumo, desaba, ameaça chorar….e a reação do irmão é incisiva e minimalista ao mesmo tempo. Grande momento. Faz valer o filme.
Infelizmente não há muito mais coisa boa que eu possa adicionar aqui. Foi uma hora e meia que demorou a passar, assim como tá demorando pra ler esse post mega grande que você escreveu seu gordo maldito principalmente após ter assistido as duas horas e meia de Noite de Estréia.
E o que falar de Noite de Estréia? Duas palavras: Gena… Rowlands:
A mulé é foda! Mas foda num nível Fernanda Montenegro e considerando que em 1977 Cassavetes ainda delegava aos atores o papel de condutor improvisador da história, deixando seu poder atuar somenta na fase de edição, isso duplica o nível de “fodidês” da atriz. Por acaso, Gena foi esposa do diretor, e os dois formaram uma dobradinha premiada o suficiente quando ambos filmaram o filme Gloria em 1980, que recebeu o Leão de Ouro pela atuação e uma indicação ao Oscar à atriz (quase igual à Fernandona).
Esse filme tinha sido originalmente escrito para o teatro o que ajuda a entender, mas não a aceitar, as gigantescas seqüências da encenação da peça dentro do filme. Sabe aquele momentos dos filmes, em que a protagonista após vencer todas as dificuldades conclui sua jornada encenando com sucesso sua peça ou musical ou filme ou show? E essa cena dura no máximo alguns minutos antes que a música suba e o filme acabe? Então, aqui ela dura quase uma hora!!!  Aliás, resumo rápido do filme: Gena faz uma  “atriz da Broadway, neurótica e alcoólatra, que entra em crise perto de uma estréia quando uma fã morre ao procurar vê-la”. Valeu Rubens Ewald Filho (roubei a descrição do site dele).


Cassavetes não conseguiu filmar uma obra-prima em vida, mas foi um cineasta de alguns grandes momentos esparsadamente distribuidos em seus 12 filmes.
Se você tiver interesse em assistir algum desses filme, só se for um verme de cinema como eu, o Festival irá reprisá-los nessa quinta e sexta feira em horários distintos. Consulte a programação aqui.

Além desses dois filmes, o festival também projetará outros 3 do mesmo cineasta. A conferir ou não.

By Gordo

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