CnC Especial: Infinite Comics – Futuro dos quadrinhos digitais?

Marvel investe em quadrinho digital pensado para IPAD utilizando os recursos simples e já disponíveis do Comixology…. é não é que deu certo?

sim…Funciona!

Foi o primeiro pensamento que brotou em minha gorda cacholeta quando me deparei com as primeiras imagens de “Avengers vs X-Men #1: Infinite“.

Não, não estou falando da minissérie-evento “blockbuster” do ano, mas sim de uma conto secundário estrelado (?) pelo arremedo de herói chamado Nova, produzida diretamente para o meio digital e que inaugura a nova iniciativa da Marvel chamada “Infinite Comics”.

Quando ouvi a primeira vez sobre mais uma empreitada digital da Marvel, imediatamente desdenhei ao lembrar de algumas tentativas frustradas das décadas passada, como Marvel Cybercomics, webisodes, etc… que eram produzidas e publicadas num aplicativo “tipo Flash” que abusava, no mau sentido, de todos os recursos de desanimação da ferramenta.

Clique na imagem pra ver como quadrinho digital de várzea, de raiz, funcionava na época dos 486 DX2

Uma incursão bem mais recente nessa área foram os “motion comics”, de 2009, que  trouxeram, por exemplo, “Spider Woman”, uma história da Mulher Aranha produzida diretamente para a internet, pelo onipresente Brian Michael Bendis e Alex Mallev, egressos de uma excelente fase à frente do Demolidor. Essas histórias traziam animações mais sofisticadas e experimentais, inclusive com trilha sonora original.

Nenhuma dessas iniciativas, no entanto, obteve grande sucesso de público, tampouco virou referência de como produzir HQs para o meio digital. Obviamente os custos e tempo de produção eram altíssimos e muito aquém da taxa de retorno financeiro esperada.

O buraco aqui fica muito mais embaixo. Por mais bem produzidas que fossem, o resultado final dessas histórias acabava num meio termo esquizofrênico entre quadrinhos e animação que remetiam aos desenhos “desanimados” baratos da Marvel da década de 70.

Thor, o boa praça em Marvel Animation

Outro fator que atrapalhou o desenvolvimento de comics para o meio digital é que obviamente a leitura de quadrinhos num computador de mesa não é o ideal. Os tablets chegaram com a promessa de revolução nessa área, mas ainda não haviam logrado êxito como se esperava. Limitados a tentar simular no aparelho a mesma experiência que o leitor tem ao ler um gibi impresso, os produtores de conteúdo não se focavam numa questão primordial – O que os tablets podem oferecer como plataforma de leitura que o meio físico-impresso não consegue.

“Infinite Comics” veio nos deixar um passo mais próximo dessa revolução.

Finalmente os Criadores perceberam que de nada adianta continuar apenas publicando scans de obras que foram pensadas para o formato da página de papel. As dimensões, a resolução de imagem, o manuseio do papel em comparação ao tablet, a composição dos quadros – a mesma cena acaba tendo um impacto totalmente diferente de um meio para o outro.

Um exemplo clássico: Uma página dupla sendo visualizada numa tela reduzida é uma experiência frustrante, porém uma tela inteira, desenhada pensando nas especificações e limitações técnicas do aparelho pode trazer um impacto jamais visto em HQ nenhuma.

Stuart Immonem ( desenhista de Ultimate Spider Man, Superman, Fear Itself e outros) explorou muitos recursos aqui e tornou essa primeira história do Nova quase uma cartilha do que é possível fazer dentro dessa nova proposta.

Os momentos que mais funcionam são os que não tentam simular animação, mas utilizam a sequencialidade das imagens para enfatizar a narrativa da ação.

E que ação! 

Nunca achei tão empolgante ler uma história em quadrinhos focada puramente em ação como lendo essa história do Nova. E olhe que por mais que eu goste de Mark Waid, o roteiro aqui é bobo e comum. Mesmo assim terminei a leitura com um “uau” e um sorriso maroto tamanha a satisfação.

Não há efeitos baratos, não há tentativa de movimento, não há efeitos sonoros, isso é história em quadrinhos, de raiz, mas num novo formato, numa nova maneira de ler, e que por incrível que pareça e repetindo mais uma vez, funciona!

Dos recursos mais interessantes nessa primeira história, destaco:

1) Desfocagem de planos.

Usando o mesmo quadrinho e apenas mudando o foco da imagem entre o plano do personagem da frente e o de trás é possível enfatizar o personagem que está falando naquele momento. É um recurso que não funcionaria bem numa história impressa porém aqui sim, além do que vc não perde os detalhes de parte do desenho por ele estar desfocado.

Veja um exemplo mais “Massavéio” desse recurso, com o Nova fugindo da Força Fenix

2) Splash-Screens

As “splash pages” tem muito mais impacto agora que são feitas para o formato exato do IPad. As imagens não aparecem serrilhadas ou pixelizadas e abusam da qualidade gráfica da tela.

  3) Sequência de Splash-Screens

Tirando algumas histórias de Frank Miller, vc já viu em algum gibi comercial uma seqüência longa de Splash-Pages? Aqui isso é possível, e funciona muito bem. Observe um trecho da sequência inicial do Nova voando pelo cosmos numa sequência de exatas 16 !!!! telas cheias. É lindo demais…

4) Anti Spoiler

Tem momento mais irritante do que durante a leitura de uma seqüência sensacional, sem querer, meio de revesgueio o olhar pega aquele momento crucial da história no quadrinho da página ao lado?

Aqui no Brasil então essa situação piora, pois os editores não conseguem seguir a seqüência original de paginação e uma surpresa que deveria aparecer somente ao virar a página está na realidade ali na página ao lado.

Agora, pra visualizar aquele quadrinho matreiro, é preciso um toque (Nuofffa) na tela e “voilá”, a emoção da surpresa, do clímax, tão forte no  cinema e TV agora é transladada pros quadrinhos sem a chance de se auto-spoilerizar.

O anti-spoiler não vale só pras imagens, vale pro texto também, além do que o excesso de Balões na página não te impede mais de visualizar a arte por inteiro, já que os balões podem aparecer e sumir em transições distintas

 

A essa altura, você leitor, como bom nerd agourento que é, já deve estar torcendo o nariz dizendo que “isso aí dá pra fazer no Pauerpóinti, grandes coisa, mi mi mi mi mi” … pois eu digo:

-Dá mesmo!!!

A tecnologia em sí é muito simples, apenas uma sequência de páginas, pensada para a transição padrão do Comixology. Sim aquele mesmo aplicativo que vc utiliza para comprar quadrinhos digitais … Oi? …. sim, comprar…. não há necessidade de instalação de um aplicativo adicional. O grande segredo dessa bagaça está em  como os artistas vão utilizar o espaço e a resolução do tablet para aplicar a sua criatividade e tornar a sua narrativa o mais fluída possível.

Quadro de Infinite Comic #2

Eu ouso comparar esse momento com aquele em que os quadrinhos saíram do universo amplo porém restrito das páginas de jornais e passaram a ter o formato atual, um suporte menor, porém mais aberto a experimentações. Isso provocou uma revolução na narrativa. O mesmo acontece aqui.

Resta aguardar e ver se a idéia pega.

Torcer para que a DC e outras editoras não fiquem de nhé-nhé-nhé e deixem de utilizar esse formato só por que foi a Marvel que o lançou.

Eu particularmente tenho fé que isso vai pra frente. A própria DC, quase que simultaneamente, lançou uma iniciativa muito similar, porém mais pobrinha, “Smalhaçãoville, Season 11”, Ame Comic Girls e outros.  A grande diferença é que a DC não ousou na experimentação da narrativa, mas utilizou a tela do ipad como uma meia página de quadrinho, assim, ao término da publicação digital ela pode faturar também com a versão impressa apenas unindo duas páginas de tablet em uma impressa. Espertinha ela. Coisa de Velha Safaaaaada.

Outra esperança é a de que  eles consigam explorar mais o formato vertical na composição das páginas. Para ler deitado na cama por exemplo é mais incomodo segurar o tablet na horizontal – Mas até aí essa é apenas uma reclamação de um gordo safado.

Gordo safado aleatório impressionado com o Infinite Comic #1

Por fim, posso dizer sem dúvidas que essa história furreba do Nova foi de longe a melhor leitura de uma história de ação que eu já li até hoje.

Resta aguardar e ver que possibilidades poderiam ser exploradas numa história mais cotidiana, focada nos personagens e não somente no movimento. A conferir.

Onde encontrar: Apps de quadrinhos digitais comerciais, como Comixology e Marvel app.

Preço: 0,99 Obamas ou de graça na compra da Edição número 1 da mini-série Avengers x X-Men.