CnC Introduz: Lembrando os áureos tempos da revista MAD

-Mário Nogueira Neto, autor desse post, é Engenheiro Civil e Escritor, reside em Ponta Grossa, Paraná e é nosso primeiro colunista convidado!

.Consegui parar de fumar há alguns anos e já abandonei muitas manias solitárias que tinha na adolescência (como jogar futebol  de botão, por exemplo), já deixei de algumas festas, de missas, de amigos – muitos dos quais não me fazem falta – e, claro, de namoradas, que vez por outra lembro com carinho. Mas se há alguma coisa que eu não consigo largar são meus gibis. E não largo mesmo. A gaveta do meu criado-mudo divide espaço com gibis diversos, livros de contos, Erico Veríssimo, Agatha Christie, Mao, Umberto Eco, Rubem Fonseca e alguns remédios que a idade me impõe. Dependendo do humor ou da necessidade uso um ou outro. Não durmo sem que algum deles me sirva. E principalmente quando é tarde leio um gibi que é mais leve e rápido.

Detendo-me nos gibis, já que os livros devem ser comentados por quem tem muito mais conhecimento de literatura do que eu, devo confessar que meu gosto é bem eclético: posso ler uma revista do Batman dos anos 30 ou um Zé Carioca – o mais verdadeiro personagem brasileiro das histórias em quadrinho; posso ler Asterix ou Mandrake; um Pato do Carl Barks ou o Mickey do Paul Murry; o indefectível Superman da Ebal dos anos 70 ou os confusos Mortadelo e Salaminho; Iznogud, Strunfs (1), Pafuncio e Marocas, Sobrinhos do Capitão, o espetacular e sempre atual Recruta Zero, as histórias do genial Will Eisner e tantos outros  que me divertem e  me levam de volta a infância e a juventude me permitindo sonhos deliciosos à noite.

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Vou me deter em uma revista lançada em 1952 e cujo nome original nos Estados Unidos era Tales Calculated to Drive You Mad  ou História com a intenção de levá-lo a loucura, posteriormente eternizada como MAD e criada por William Gaines, ateísta e apolítico, batia forte em política e religião.Tinha como mote “Não leve nada a sério demais!”. (Um exemplo: na paródia de Ghostbusters II, um padre se aproxima de Bill Murray e diz: “No clero, somos contra as pessoas acreditarem em nonsense fantástico ou superstições sobrenaturais”, ao que Murray replica: “Claro. Vocês querem que as pessoas acreditem em coisas quotidianas como a Arca de Noé e serpentes falantes com maçãs!”) – citação da Wikipédia. Gaines continuou a frente da revista até sua morte em 1992, mesmo a tendo vendido para a Time Warner.

Página de Don Martin, o mais reconhecível e emblemático criador da MAD norte-americana.

Lançada no Brasil nos anos 70, me pegou em plena juventude idade das brincadeiras cruéis onde o que vale é dar risada a toda hora à custa dos amigos e irmãos mais novos. Mas, onde as gags e brincadeiras têm de ser obrigatoriamente inteligentes. Quanto mais inteligente mais conceituado é o piadista. E se há algo marcante na revista MAD é justamente o humor inteligente.

Vocês não imaginam com que ansiedade nós aguardávamos a revista do mês. E a seção que primeiro era procurada era a sátira de filmes do cinema, para saber qual seria o título inventado para um filme famoso e como desenhariam e satirizariam os personagens? Desenhados inicialmente por Wally Wood, um dos criadores da revista e posteriormente por Bill Elder – o mais famoso –  Mort Ducker ou Angelo Torres e com textos geniais de Stan Hart ou Larry Siegel, para citar apenas dois, era delicioso ver a maneira como eles destruíam roteiros e trucidavam artistas fazendo-nos ver os erros e o ridículo de cada filme. Sem falar das caricaturas desenhadas com maestria. Engraçadissímos! Títulos brasileiros como  Superducaromem, O Corno Indomável, Flash Gordão, Casabronca, Pôpapai já nos remetem a filmes antigos ou lançados naquela época.

Reprodução de parte da Página dupla da Sátira de Indiana Jones e a Caveira de Cristal.

E a sátira não se limitava aos filmes, mas se estendia a cultura pop norte americana. Com um humor subversivo chegou a ser proibida pelo governo americano nos anos 50 e investigada pelo FBI, como tudo lá, é claro. Chegou ao Brasil retumbante e ganhou o público jovem estudantil e todos aqueles que não deixavam de ser jovens nunca, principalmente porque o alvo das piadas eram os americanos. E o terceiro mundo adora rir do primeiro. Era um prato cheio.

A sátira se dava em cada canto da revista, literalmente. As piadas marginais, que eram desenhadas nas margens da revista mesmo, pelo mexicano Sergio Aragonés são charges que sintetizam em um único desenho e com traço simples e muito expressivo, uma situação engraçada do cotidiano. Até hoje nos faz rir. O humor nonsense de Dom Martin, Spy versus Spy de Antonio Prohias, o lado irônico… de Dave Berg, as dobradinhas e o Respostas Cretinas para perguntas imbecis de Al Jaffee – este ainda vivo –  Paul Coker, Duck Edwing, Paul Peter Porges, Jack Davis, John Ficarra, John Caldwell são o máximo do bom humor e me divertem até hoje quando leio minhas MADs antigas ou compro edições especiais.

Página de Spy VS Spy de Bob Clarke e Duck Edwing na edição brasileira. Repare nas micro-ilustrações nas bordas da página, pelo gênio de Sérgio Aragonés!

Vou parar por aqui senão continuarei falando desses ícones do humor sem me cansar, por horas e horas e vou cansar o interlocutor já que o gosto é meu e não sei se é dos demais.

A Editora Panini continua com a revista sendo que o material inédito é em sua maior parte desenhado por artistas brasileiros. Ainda é muito pouco para ombrear com a revista de Alfred Newman, mas é um começo, já há alguma coisa boa, mas muita apelação ainda. Quem sabe?

Alfred E. Newman prestando a devida homenagem ao CnC! Claro! – Detalhe de capa de edição da Panini

Quando vários artistas se reúnem trocando idéias e desenvolvendo trabalhos bem focados e criativos algo de bom acontece. Foi o que ocorreu com a MAD, um mundo próprio e incomparável. Uma obra de arte dos quadrinhos. Um dos meus duzentos gibis prediletos.

Criatividade e genialidade é o que necessita qualquer projeto e quando em grupo a chance de dar certo é ainda maior. Foi o que ocorreu com a MAD e quem sabe não acontece algo parecido com o grupo do Cocô na Cuia.

Por Mário Nogueira Neto

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(1) Strunfs é como os Smurfs eram chamados aqui no Brasil quando começaram a ser públicados muuuitos anos atrás  – (Corrigido pelo autor do post em 2 de Julho – “Strunfs é o nome original dos Smurfs na Europa. Eles mudaram para Smurfs nos EUA.”
  • Mário Nogueira Neto

    P.S. – Strunfs é o nome original dos Smurfs na Europa. Eles mudaram para Smurfs nos EUA.