CnC Exclusivo: Batman: Earth One – Review

Review especial da nova Graphic Novel ainda inédita no Brasil, que reconta a origem do Bátema.

Essas últimas semanas foram definitivamente dominadas pela Morcega Vingativa em todos os sites nerds e afins do Brasil e do mundo, e pra finalizar essa onda das trevas com chave de ouro, o Cocô na Cuia traz a vocês, com exclusividade total no Brasil, um review quase SEM SPOILERS da versão impressa de Batman: Earth One.

Esse gordo aqui não aguentou esperar a Panini se coçar para lançar a mini-série em terras brasilianas e encomendou um “exemplarzinho” da boa e velha Amazon, mas que fique claro que essa prática não deve ser seguida se você não for esganiçado como eu, afinal devemos sempre prestigiar o nosso comércio local de quadrinhos, mesmo que seja o mercado de traduções de enlatados como é o caso da Panini, e qual foi o tamanho de minha alegria ao abrir o pacote delicadamente e encontrar aquela beleza de exemplar do Bátema só pra mim

Caixa de entrega da Amazon após passar por minhas mãos gordas e desesperadas!

A edição gringa, como de praxe é de encher os olhos. Capa dura fosca, com detalhes envernizados e uma lombada emborrachada que eu ainda não tinha visto em edições nacionais até hoje. Se você já é adepto da leitura de quadrinhos digitais pode comprar na  loja digital da DC sem erro, afinal a arte do Gary Frank não perde força na transcrição impresso-digital.

O que é a “Terra Um”

O Superman de cuecas frouxas da Terra Um

“DC Earth One” é uma série de graphic novels da DC Comics que se situam num novo e independente universo, separado das 52 Terras da cronologia oficial da editora. Em termos miúdos é um cercadinho onde criadores especialmente selecionados podem desenvolver as suas próprias versões dos principais personagens da editora sempre num formato de Graphic Novel, encadernado como livro e contendo uma grande história fechada que enfatiza os primeiros anos de atuação desses personagens. É a velha máxima de recontar a mesma história de uma maneira diferente para atrair novos leitores e reciclar os já existentes.

Capa de Superman Earth One #2

O primeiro lançamento dessa iniciativa foi a “Superman: Earth One” publicada em Outubro de 2010 e escrita por J. Michael Straczynski (criador de Babylon 5 e de uma das melhores fases do gibi do Homem-Aranha) e ilustrada por Shane Davis (Superman&Batman, Lanterna Verde: A fúria dos Lanternas Vermelhos). Acabou tornando-se uma graphic novel campeã de vendas pela DC, garantindo uma segunda edição com os mesmos autores e o lançamento dessa “Batman: Earth One”, escrita pelo figurão da DC Comics e pau pra toda obra Geoff Johns (atualmente escrevendo Liga da Justiça, Aquaman e Lanterna Verde) e ilustrada por Gary Frank (Superman:Origem Secreta e Action Comics)

Estilo Nolan alcançando os quadrinhos.

É perceptível a influência da trilogia Batman de Nolan na criação dessa história, desde a estrutura básica da jornada do herói em retrospecto, como abordada em Batman Begins, passando pelas tramas secundárias pseudo-políticas até a trama do vilão clássico das histórias da “Morcega” abordado de maneira crua e realista, servindo ao propósito do arco de história e fugindo da caricatura que tornou famosa a galeria de vilões do herói.

Nolan e a criatura!

É a finalização do velho arco criativo: Nolan bebeu de grandes clássicos dos quadrinhos, que gerou a sua versão cinético-realista, que agora afeta a maneira como os quadrinhos do heróis são criados.

A boa notícia, é que ao menos nessa história, com esses criadores, o estilo-Nolan fuciona… até certo ponto.

Comecemos pelo que há de bom. Há uma série de novas idéias, que podem e deverias ser agregadas a longo termo na mitologia do Morcego. Comecemos pelo grande destaque dessa edição, o novo Alfred.

Alfred Definitivo, Bullock, Gordon e outras boas surpresas.

O novo Alfred, o Fodão de Bengala, dando um cheiro Bátema.

O velho mordomo fiel de Bruce Wayne ganha novas dimensões nessa graphic novel. Finalmente é lhe dado um novo e intrigante passado, ainda que não totalmente explorado, um novo visual e um novo papel dentro da trajetória de Bruce.

Uma das coisas que me incomodavam muito em todas as histórias do Bátema era a razão da fidelidade eterna e incorruptível do mordomo, sempre gratuita, nada crível. A solução aqui é bem interessante, cabível e entretêm. Alfred passa a desempenhar um papel de mentor, até certo ponto similar ao de Henri Ducard (ou Ra’s Al Ghul) em Begins…. calma suas piranhas, garanto que isso não estraga a surpresa de nenhuma descoberta do enredo, mas pode esperar por uma inesperada luta corpo a corpo onde um dos lutadores é o velho mordomo.

Alfred descendo o cacete em….

Outro grande personagem nessa versão, tendo até mais destaque que o próprio Bruce Wayne, é  Harvey Bullock, não mais aquele bom e velho gordo cachaceiro rabugento e dúbio (ao menos nessa primeira história), mas um policial honesto, empolgado, iludido e bonitão(???), recém chegado a Gotham-City após ser demitido de um reality show policial (Hollywood Detectives) e ansioso por encontrar ali a história que o fará voltar aos holofotes.

“Gordo” conhecendo seu novo parceiro contra o crime – Rááá!

Gordon, não um comissário, mas um simples policial, é mostrado inicialmente na sua versão mais bunda-mole auto-piedosa ever. Longe daquela imagem de policial honesto e incorruptível, aqui ele se faz de cego para a corrupção a solta na cidade e sua única preocupação é com sua única filha, Bárbara (quem, quem quem?)

A união dois dois, contra a vontade de Gordon, gerou alguns dos pontos altos da história, grandes momentos de interação e será o mais próximo de uma dupla dinâmica que você encontrará aqui.

Lucius Fox também é re-apresentado, aqui diretamente influenciado por sua versão Nolística.

O Jovem Lucius

As famílias Wayne e Arkham agora possuem uma ligação inédita nos quadrinhos e isso traz possibilidades realmente interessantes, mas não bem aproveitadas nessa história, porém isso explicaria muito da insanidade de Bruce Wayne e o por que dele ter se tornado Batman, afinal eu sempre achei o simples fato de vingar a morte dos pais muito pouco para fazer um milionário emepenhar sua vida em fazer justiça sem armas por aí, ele tem que ser tão pancada quanto os vilões que enfrenta.

Martha Wayne é mostrada como uma personagem de importância, isso também soou como novidade, pois ela sempre foi simplesmente retratada como  a mãe do Batman e esposa de Thomas Wayne, visão mais machista impossível. Aqui eles pintam algumas nuances de um passado e pincelam uma personagem independentemente forte, mas novamente, isso morre na superfície. Aliás, essa foi a frustração principal que tive lendo esse encadernado. Muitas idéias que fiquei ávido por ler mais e mais, relegadas em detrimento de outros enredos batidos e sem graça.

A nova e engajada Martha Wayne

E se é pra falar de coisa ruim, vamos começar pela principal delas, o Birthday Boy!!!

Vilões: Se não sabe fazer melhor não faça!!!

Birthday Boy??? Really???

Sério, deveria haver uma lei pela qual se você não consegue criar um vilão para o Batman que seja tão maneiro quanto às dezenas de vilões já existentes em sua galeria, você deveria ser obrigado a utilizar o que já existem.

Birthday Boy é um capanga do Pinguim (o vilão revisitado realisticamente da vez), serial killer obviamente e seu modus operandi consiste em deixar um bolo de aniversário com velinhas acesas para a próxima vítima que sofrerá em suas mãos, não bastando isso ele pede à vítima que faça um pedido e não conte a ninguém. Pra completar a tosqueira, ele é um cara gigante ao estilo Bane, que se veste como um menininho e usa uma máscara que parece um saco de pão velho na cara.

O novo Pinguim, Nolan style.

Sem mais nesse sentido, eu até gostei de alguns momentos do Pinguim, mas sinceramente sou muito mais um Pinguim estilo Danny de Vito, com guarda-chuvas hipnóticos e patinhos amarelos gigantes do que o apresentado aqui. Mas isso é opinião pessoa e não deveria ser apresentado numa crítica, certo? Certo, mas foda-se!!!

Outro grande problema nessa versão é o visual do Batman. Se a intenção do herói era causar medo nos vilões com sua indumentária aqui ele falha miseravelmente, causando risos no leitor em certos momentos. Mas vale ressaltar que gostei da intenção de mostrar os olhos do heróis e não mais aqueles olhos brancos genéricos do gibi e das animações. Isso é algo que funcionava no cinema, mas não achei que desse certo nos quadrinhos, mas deu. Ponto para Gary Frank.

Aliás vale ressaltar que o ilustrador evoluiu muito em algo que eu considerava a sua maior fraqueza em trabalhos anteriores, as feições humanas. Nesse trabalho cada personagem é muito característico sem ser caricato, é muito fácil identificar quem é quem, algo que não acontecia em Superman por exemplo, onde todos os homens tinham a cara do Clark. Ele realmente alcançou um outro nível como desenhista, pois alcançar esse resultado com esse estilo clássico-realista dele é algo extremamente difícil. Se ele conseguir vencer a preguiça de trabalhar os cenários das histórias ele pode despontar com um dos melhores da década em histórias de super-heróis.

De resto as expressões dos personagens são muito bem trabalhadas e Gary detona nos momentos mais intimistas, passando todas as emoções que as cenas pedem. Virei fã.

Estudos para Batman por Gary Frank

Pra  finalizar um pequeno momento spoiler, que realmente me deixou intrigado (selecione o trecho abaixo para conseguir ler:

*** SPOILER ALERT ! ***

Nessa versão Batman não mata, como nos filmes do Nolan, mas Alfred mata. E mata friamente. E pior, com armas de fogo e na frente do Batman, e o Morcego não parece dar a mínima para isso. Curioso, e uma quebra de paradigma.

*** FIM DO SPOILER ***

No fim das contas, Batman Earth One é um ótimo investimento, especialmente para aqueles que saíram do terceiro filme com gostinho de quero mais. Aliás o Morcego vem passando por um dos seus melhores momentos nos quadrinhos, após anos de boas histórias de Grant Morrison e agora com Scott Snyder detonando no revigorado Batman dos Novos 52.

Palmas para os criadores e a torcida para que a Panini não demore a lançar essa graphic novel por aqui (a do Superman não saiu até hoje).

Nota:

Abraço do Gordo.