Suburbia: A nova empreitada de Luiz Fernando Carvalho na TV

A Folha de São Paulo do último domingo () trouxe uma ótima novidade, provavelmente para mim e meia dúzia de perdidos por aí, mas “foloda-se”, o que importa é que Luis Fernando Carvalho iniciou as filmagens de Suburbia uma nova mini-série para a Rede Globo, que promete trazer uma revolução no estilo de produção do diretor propondo a negação do método de artesão-onírico-ultra-requintado pelo qual ele ficou conhecido e buscando uma espécie de realidade através de uma linguagem jornalística e a utilização de não-atores para contar histórias suburbanas que fujam das versões maquiadas voltadas para a classe “C” que vem pululando em todos os cantos.

Primeira imagem de Suburbia

Desde o ano de 2001, em que foi lançada a macro-série “Os Maias” na mesma rede de TV e “LavourArcaica“, primeiro e último filme do diretor que chegou a (poucos) cinemas do Brasil, Luiz Fernando Carvalho se tornou o meu diretor-favorito-ever-de-todos-os-tempos e um dos poucos que me deixam babando de ansiedade a cada novo trabalho anunciado.

Simone Spoladore balangando os peitos em LavourArcaica

Com os trabalhos dele tomei consciência que a luz do Projac não era a luz do mundo e percebi a importância da fotografia numa obra audio-visual. Foi através de suas obras que alcancei meu primeiro contato com os filmes de Glauber Rocha, Federico Fellini e tantos outros cineastas fodásticos. Tomei gosto pelo estudo da história do cinema devido à curiosidade de conhecer as referências utilizadas por ele. Só passei a me aplicar o estudo de História da Arte depois de ler uma entrevista do diretor em 2001 onde ele comparava trechos de suas filmagens com obras pictóricas de diversas escolas, sempre citando um artista específico na composição de determinada cena.

Já deu pra perceber que esse gordo aqui paga pau pelo cara, mas minha intenção nesse artigo não é convencê-lo de nada e sim trazer um pouco de informação consolidada sobre a a sua trajetória e quem sabe despertar a curiosidade de um leitor paciente (que tenha passado do primeiro parágrafo) para a obra dele.

Gênio incompreendido ou Comunistinha-de-Faculdade pretencioso?

Amplamente incompreendido pelo grande público, suas produções para televisão muitas vezes amargam audiências baixíssimas para o padrão Global. O diretor sempre extrapola os limites da narrativa, composição de cena e edição, se preocupando apenas em levar suas visões às telas da maneira mais fiel possível aos seus credos e sempre desafiando os paradigmas estabelecidos em seus trabalhos anteriores. Resumindo, vc não pode querer assistir o próximo trabalho do cara esperando encontrar todas as mesmas características que vc curtiu no anterior. Ele está sempre se desafiando e propondo coisas novas ao expectador. Sempre um passo fora do quadrado. Sempre procurando o desconforto para trazer algo novo e expressivo dali.

Cena de “A Pedra do Reino” – seu trabalho mais complexo até então

Por conta dessas “ousadias” ele é comumente tachado como hermético e auto-indulgente, mas é um dos poucos autores, criadores e/ou diretores brasileiros que tem a manha de fazer um produto de difícil digestão exibido em cadeia nacional, rede aberta de televisão. Um produto de entretenimento complexo, sem concessões e sem nivelar os expectadores por baixo.

Já li muita gente criticando seus trabalhos, alegando “de que adianta disponibilizar uma obra de arte se ninguém tem interesse em apreciá-la?”.

O fato é que no Brasil, país continental, pobre e blábláblá, um dos grandes motivos que mantém as camadas mais pobres distantes de produtos de arte mais elaborados, além do fator educação, é o acesso. O fato de ele conseguir disponibilizar produtos desse nível diretamente aos aparelhos de TV, ainda o único ponto de contato cultural de muita gente país adentro, já é por si só uma razão para assegurar a esse cara um lugar no panteão dos grandes criadores de arte contemporânea.

Tudo começa com novela!

Pra chegar até esse ponto, Luiz Fernando adotou um esquema de trincheira, começou com trabalhos de assistência de direção em novelas e séries como Grande Sertão Veredas,  foi alçado ao estrelato global ao trazer requintes de cinema a novelas como Pedra sobre Pedra, Renascer e O Rei do Gado, além da mini-série Riacho Doce, sempre num crescendo de qualidade, adicionando uma direção de fotografia diferenciada aqui, um ritmo de edição mais contemplativo ali, travellings de câmera milimetricamente bem cuidados onde antes o padrão era câmeras estáticas ou trêmulas quando em movimento e inaugurou uma nova fase de ousadia ao trazer à vida Os Maias de Eça de Queiroz, em 2001, com uma fotografia escura, pesada e interpretações inesquecíveis de atores consagrados e outros que até então não se esperava muita coisa.

Os Maias – Drama pouco é bobagem, o cara descobre que comeu a irmã, vai lá e come de novo…

Vale ressaltar, que essa inclusive é uma característica comum a todos os trabalhos dele como diretor, extrair interprestações intensas e viscerais de todos os atores, mesmo os menos talentosos saem transformados para melhor após trabalhar com ele, quem imaginaria por exemplo que Ana Paula Arósio poderia prover uma interpretação tão mínimalista e forte como a sua Maria Eduarda da Maia após tantas atuações fracas e canastronas?

Ana Paula Arósio como Maria Eduarda da Maia

A partir daqui o apuro técnico das obras de Luis Fernando só aumentaram, fotografias impecáveis, iluminações ousadas, sempre remetendo a artistas grandiosos de variadas épocas para compor as imagens, porém a audiência começou a se afastar dos produtos entregues por ele. Em 2002 por exemplo foi traumática a última experiência dele com telenovelas: Esperança.

Rodrigo Santoro em Hoje é dia de Maria 2

Seu último sucesso (de público) foi Hoje é dia de Maria, de 2004 e 2005, mini-série em 12 capítulos (8 + 4) que revisitou a cultura sertaneja e o universo infantil brasileiro numa produção que abusou de truques teatrais e soluções inovadoras para uma produção televisiva. Chegou-se a criar um domo gigante onde se instalou o mundo de Maria dentro e todas as gravações aconteciam dentro dele, nesse universo onírico artificial. Em sua segunda temporada ele usou e abusou das recém adquiridas câmeras de alta definição para capturar tudo com uma atmosfera cinematográfica inesquecível, usando e abusando de desfocagens e diferenças de planos com efeitos finais embascadores.

“Maria” e a cabeça arrancada de Fernanda Montenegro

Partindo daí, e após uma breve jornada como diretor teatral, o diretor trouxe um novo e ambicioso projeto, que ele chamou de “Quadrante“. A idéia era adaptar para o formato de micro-séries, livros representativos de 4 regiões do Brasil e utilizar mão de obra e atuação local para produzí-las. Quatro livros foram selecionados, dois produzidos para a TV e o projeto cancelado devido à baixa audiência: “A Pedra do Reino” de Ariano Suassuna, Dom Casmurro de Machado de Assis, que resultou em “Capitu” e as adaptações já canceladas de “Dois Irmãos”, do amazonense de origem libanesa Miltom Hatoum, e de “Dançar Tango em Porto Alegre”, do gaúcho Sérgio Faraco.

A Pedra do Reino

Em 2007, “A Pedra do Reino” foi exibida e a Globo amargou uma das suas piores audiências no horário. Essa foi de longe a obra de mais difícil assimilação do diretor feita pra TV, razoável uma vez que a obra de Ariano Suassuna nunca foi fácil e o diretor não fez esforço nenhum para atenuar essa questão, que eu me recuso a chamar de problema.

Posteriormente foi condensada em formato de filme e saiu em excursão Brasil afora, seguido do lançamento de Capitú na televisão em 2008. O livro de Machado de Assis com certeza ajudou na produção de uma obra mais acessível, o diretor ainda utilizou elementos musicais modernos, inclusive apresentando o grupo Beirut ao Brasil na música tema “Elephant Gun” e o resultado final foi uma ópera-rock que fez jús à obra clássica do escritor carioca, mas a alegria acabou aqui. O Projeto Quadrante foi interrompido e continua arquivado até o momento.

Capitú

Luiz Fernando engrenou em 2011 “Afinal o que pensam as mulheres” uma obra mais moderna e com um formato mais próximo das séries norte-americanas (da HBO). A linguagem pop dominou na fotografia e na trilha sonora e apresentou uma série de atores egressos do teatro assim como nos presenteou como a melhor atuação de Vera Fischer (???) em toda a sua carreira.

Paola Oliveira em Afinal o que pensam as Mulheres!

Resta agora a curiosidade em ver o resultado final de Suburbia e a expectativa pelas maneiras que o diretor encontrará para nos surpreender. O roteiro foi feito a quatro mãos, é dele e de Paulo Lins (roteirista de Cidade de Deus) com trilha sonora de Ed – chingo muito no Facebook – Motta e isso por si só já soa curioso. A conferir.

by Gordo

  • Opa! Capitu eu assisti! o/