Bullhead – 2011 – Review

No lugar desse review era para você estar lendo a coluna de estréia de um desafio diário idealizado pelo meu caro amigo e colaborador do Cocô na Cuia, o “Fatso” em conjunto com esse Gordo que vos escreve, mas como tudo que é idéia boa que surge nesse site ela acabou sendo postergada por tempo indeterminado. Eu só adianto que essa proposta envolve dois gordos cinéfilos “comunistinhas de faculdade“, uma maratona que deve durar um ano e filmes, muitos filmes escolhidos ao acaso.

Ah, o acaso!

Foi esse menino maroto (o acaso) que me levou a escolher dentre as centenas de filmes pendentes de serem assistidos que populam a minha lista de espera, um filme belga, de 2011, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2012 e perdendo para o iraniano “A Separação“. Estou falando de “Bullhead“.

Matthias Schoenaerts como o protagonista truculento Jacky Vanmarsenille (quão legal é esse nome, hein? hein?)

Filme de estréia do diretor Michael Roskam, ele surpreende e agrada quando nos introduz a um mundo e um tema pouco amistoso e impessoal e subitamente nos lança à uma jornada pessoal e traumática.

Se eu tivesse lido de antemão alguma sinopse superficial antes de tentar assistir a esse filme, eu provavelmente não o escolheria, mas aquele momento aleatório, aquela percepção infinitesimal que me fez lançar os olhos sobre o título e imediatamente gravá-lo em meu tablet para assistí-lo ao longo do dia, fez com que eu me sentisse um puta de um privilegiado por ter gastado meu tempo com um filme que me fez sentir alguma coisa, que me trouxe um pouco do doce sabor da surpresa, da descoberta, aquela sensação que o cinema deveria ter obrigação moral e contratada de nos entregar em oposição à pasmaceira estagnada que povoa as salas de projeção país afora nos últimos anos.

ê, eô, vida de ga-a-do

Entenda, o filme não é uma obra prima, nem de longe impecável, ele é diferente, mas também cheio de clichês e maneirismos,cobra um preço pela espera e pelo estranhamento causado pelo universo indigesto apresentado. A compensação, entretanto, chega logo e supera a ojeriza, afinal haja talento para construir uma história que desperte algum interesse mesmo sendo passada num país frio e cinzento, num universo de criadores de gado super inflado pela máfia dos hormônios, permeado por relações ásperas e formais focado num protagonista brutamontes aparentemente inexpressivo e viciado em anabolizantes.

Tudo se transmuta e cresce exponencialmente, mesmo que reduzindo o escopo da história apresentada, num daqueles momentos em que se reconhece o talento latente de um criador iniciante. Do universo permeado por personagens sem identificação imediata com o espectador eis que um gancho obtuso é subitamente lançado diretamente na jugular do ser descrente de que pode vir a gostar dessa história, alçando-o à condição de fiel esperançoso de que essa pode ser, por fim, uma grande jornada.

Jeanne Dandoy no papel da mocinha estranha Lucia Schepers

De fato, grande não é, mas essa fisgada, esse momento de ruptura, a certeza de que tudo pode mudar num segundo, numa ação impensada e não mensurada, instantaneamente faz com que olhemos aquele universo com olhos curiosos, de quem quer aprender mais, agora que passou a obter consciência do por que aquilo é assim, todo o cinza passa a ganhar outras cores, o gado esperando pelo corte passa a ser uma visão agradável, pois dali podem surgir mais pistas, mais histórias paralelas, novas relações não visíveis nos 30 primeiro minutos do filme, mas que estavam ali o tempo todo, e eis que um bom filme se faz.

Pôster do filme – Clique aí pra ver grandão.

O jogo do inesperado e o malabarismo de temas fazem dessa primeira incursão do diretor num longa metragem, uma agradável experiência além de um válido estudo sobre a masculinidade e o bullying em todos os seus aspectos. Enfatizo, não é o melhor filme da minha vida e provavelmente não será o da sua. Sim, há a esperada analogia do protagonista bruto e selvagem com os touros criados por ele desde a infância, com direito a bufos e tudo mais, há, claro, jornadas de amizade e amores proibidos, tudo que o cinema mundial nos entrega a mais de um século, mas há também surpresa, choque e o despertar do interesse. Me entreteve por duas horas e ainda experimentei algo novo. Mais do que válido para uma quinta-feira a noite, não?

Trailer: