Gibicon: Dia #2

Saudações gurizada! Chegamos ao segundo dia da cobertura de um homem só que o Gordo aqui resolveu fazer da Gibicon. Obviamente estou publicando esse post no dia do encerramento, mas sabe como é .

Na sexta-feira, dia 26, partipei de um debate sobre webcomics e quadrinhos digitais. Saindo dali dei minha primeira volta no Memorial e parti debaixo de muita chuva em direção ao Shopping Barigüi para o lançamento do álbum Vostradeis de Fernando Gonsales, de longe o ponto alto do dia.

Memorial de Curitiba

O Coração da Gibicon
Vista aérea do Memorial de Curitiba, onde a feirinha nerd se concentra.

Fiquei impressionado e muito feliz ao entrar no Memorial de Curitiba, onde estão concentradas a feira com Comic Shops, estúdios independentes e lojinhas de aparatos nerds. A grata surpresa foi no sentido de que temos pelo menos 3 vezes mais atrações e comércio do que na edição Zero de 2011. Antes tínhamos somente a Itiban como representante comercial de quadrinhos do evento, mas qual foi o meu espanto ao avistar um stand da Comix de São Paulo forrado, eu disse forrado dos encadernados de quadrinhos nos formatos mais diversos. Pode apostar que boa parte do meu soldo de Outubro ficou por lá 🙁

Muito interessante também os stands de quadrinistas independentes como a Quadrinhópole, distribuidora digital de quadrinhos que possui títulos de André Caliman dentre outros, a Vampira Lésbica (melhor nome dentre os stands), Cadu Simões com a sua Petisco, que surgiu como revista online e agora ganhou coletânea por uma iniciativa de crowdfunding ( financiamento coletivo) e muitos outros.

A barraquinha mais “duca”

As lojinhas também despertam em muito o seu instinto consumista se você é um nerd tosco como eu. Reparem no expositor Estrela da Morte recheado de personagens Star Wars e outras miniaturas fantásticas. Se for até lá por gentileza comprem alguma coisa só pela simpatia de todos os atendentes da barraca. Gente boa é apelido.

Quanto aos cosplays, ainda não tive grandes amostras tirando uma Miss Marvel, uma loira de Vermelho que ainda não consegui identificar quem era e um Darkman – Vingança sem rosto (sim, aquele dos tempos da Tela Quente de 1996).

A Vampira Lésbica

Pra completar, ainda há um bom espaço de café montado no segundo andar do memorial. Tirando o calor escaldante do meio dia, em geral é um bom espaço para descansar, ler um gibi e bater um papo com outros fãs de quadrinhos. Ano passado haviam apenas algumas mesinhas no andar térreo, mas dessa vez, ainda bem, por falta de espaço ali, acabaram subindo com ele. Ao lado do café ficam também as mesas de autógrafos. Boa a iniciativa da Gibicon de preparar senhas, assim como fizeram por todas as palestras e debates, não fica aquela correria desenfreada e quem batalha pelo seu ganha de fato.

Debate Webcomics e Quadrinhos Digitais:

com Gus Morais, Galvão e Cadu Simões. Mediação de Lielson Zeni.

Debate muito interessante e relevante, com 3 artistas que publicam quadrinhos na web.

Conhecemos a Petisco, coletânea dos webcomics publicados originalmente online por Cadu Simões, ganhador do HQMIX pelo roteiro de Homem-Grilo. A edição impressa possui uma característica marcante, que é o fato de ter sido financiada pelo Catárse, um site brasileiro de financiamento coletivo. Apesar de ser uma tiragem baixa, de mil exemplares, o que faz com que o preço final do álbum seja elevado, é muito empolgante ver que os sites de crowdfunding estão engatinhando e começando a funcionar em nossas terras.

Uma característica comum dentre os criadores foi a de tentar manter os seus sites limpos, sem propagandas poluindo e travando o conteúdo, contando apenas com sua base de leitores e a divulgação boca a boca para fazer a repercussão crescer. O CnC também não tem propagandas em sua página, mas é mais por que ninguém quer patrocinar um site com esse nome uhauhauha

Gus Morais

Gus Morais veio trazer seu livro Privilégios, coletânea de dois anos de trabalho publicados. Gus é mais conhecido pelo seu trabalho com a HQ Bytes de Memória, que sai no caderno Tec da Folha de São Paulo.

Galvão, por sua vez, é de longe o mais idealista dos três, parece fazer  quadrinho à moda antiga e admite ainda não conseguir transformar seus webcomis em algo rentável. Seu método de produção é todo voltado para o papel, ele não pensa na web como o suporte onde o quadrinho será construído, mas como a plataforma que irá hospedar seu trabalho transferido do meio físico para o virtual.

Gus ainda tenta variar e pensar em outros formatos, mistos, em que ele possa produzir num formato específico para web e depois transitar para o físico, mas  ainda possui opiniões conflitantes sobre para onde seguir. Me surpreendeu o fato de nenhum deles trabalharem pensando para o formato de tablet. É fato que o Brasil ainda não possui a facilidade de acesso e popularização que esses equipamentos tem em países mais desenvolvidos, mas acredito piamente que seja uma questão de tempo.

Galvão

Falamos também sobre o caos de quadrinhos feitos para a web, sobre os milhares de trabalhos perdidos no meio de um mundo desordenado de lançamentos disponíveis à qualquer um com acesso à rede, mas restrito a pequenos grupos que efetivamente acompanham esses trabalhos e que tem dificuldade em se expandir.

Um ponto que me deixou menos mal comigo mesmo, porém lamentoso pelo mercado em si, foi o fato de descobrir que dentre eles, ninguém, mas ninguém vive só de quadrinhos… são também professores, ilustradores, design. Bem colocado por Gus o argumento de que não há mal algum em pegar grana de outros trabalhos, desde que você consiga reservar tempo suficiente para focar na sua produção, por outro lado é lamentável que tão pouca gente em nosso país possa dizer com todas as letras Profissão: Quadrinista.

Falamos também sobre algo que descrevi em detalhes no meu artigo sobre o Infinite Comics, em que as pessoas confundem os efeitos disponíveis nos computadores e acabam transformando quadrinhos em pequenas animações interativas que ao fim acabam parecendo as desanimações da Marvel nos anos 70.

Ao final uma boa discussão sobre a diferença entre quadrinhos feitos para a internet e quadrinhos na internet. Como tudo muda quando se usa a Internet, os tablets e computadores como suporte para construção, pensando nos recursos disponìíveis, resolução de tela e tudo mais e o outro lado, quando se tem um trabalho pronto, que apenas é digitalizado e disponibilizado num site.

Conejos, de Galvão – Esse eu me arrependi de não ter comprado. É muuuuito divertido!

Em resumo, debate foi muito instrutivo e relevante, realmente valeu o tempo investido. Uma das coisas que notei e confirmei ao conversar com vários quadrinistas independentes na feira é que falta ainda ao quadrinista brasileiro uma visao mais empresarial, enxergar seu quadrinho como um produto, um negócio. É possível sim vc ser idealista, sonhados, sem amarras, mas é preciso pensar em como vender seu trabalho e ampliar sua base receptora. A pensar….

Lançamento de “Vostradeis” de Fernando Gonsales.

Criador de “Niquel Náusea”, fala sobre seu último lançamento “ em livraria de Curitiba
Fernando Gonsales desenhando para o CnC

Não é segredo que sou fã ardoroso dos trabalhos de Fernando Gonsales. Formado em Veterinária e Biologia, profissão na qual chegou a atuar por pouco tempo, Fernando é o criador da famosa tira Níquel Náusea, publicada em diversos veículos, nacionais e até internacionais, mas principalmente no jornal Folha de São Paulo, onde começou a publicar após ganhar um concurso de novos talentos do próprio jornal e dali passou a ser presença constante em suas páginas.

Saí correndo do Memorial para chegar a tempo da palestra que aconteceria no palco de uma grande livraria no Shopping Barigüi. Obviamente cheguei suado e com os pentelhos da cabeça embaraçados achando que ia chegar atrasado. Dei aquele pulo esperto no banheiro, uma bela de uma enxugada no sovaco, um perfuminho e corri pra livraria. Chegando lá, tudo vazio. O evento aconteceria somente dali a meia hora. Ufa. Ainda daria tempo de procurar os livros do Gonsales para comprar e quem sabe pedir um autógrafo. O artista eu achei de cara, estava de pé, conversando com os organizadores da Gibicon, já os livros… bola fora, perderam uma boa chance de vender alguns exemplares a mais.

Acabei encontrando apenas a edição de lançamento de Vostradeis disposta numa banquinha tímida, num canto escuro, mas nada das demais coletâneas de Níquel Náusea. Juro, se elas estivessem ali, é muito possível que eu levasse todos, principalmente depois do super desenho do Rato Ruter (não Ruthes), que Fernando tão gentilmente ofereceu a mim e ao pessoal do Cocô na Cuia.

o Rato Ruter, o preferido do Gordo.

Níquel Náusea, para os perdidos que ainda não conhecem é o nome paródico de seu personagem principal, um ratinho grotesco porém fofo, mas também é o nome da tira, que publica personagens variados, sempre fazendo alusão ao mundo animal e utilizando informações científicas para construir piadas. Além de Níquel, são recorrentes a barata Fliti, a rata Gatinha e o meu preferido, o rato Ruter.

Fernando começou falando de Vostradeis, afinal ele estava ali promovendo o lançamento, e sobre os artistas e suas escolhas, especialmente temáticas. O autor não é e nunca foi um estudioso da Idade Media, é um mistério pra ele o por que de ele ter se fixado num personagem que seria daquela época e que se estudiosos fossem analisar as histórias do livro ao pé da letra, teriam descoberto que Vostradeis passa por mais de mil anos de história. Em suma, isso tudo não importa, o que funciona realmente no trabalho de Fernando é a despretensão.

CnC perguntou sobre a pronúncia correta e a origem do nome do personagem e Fernando explicou que Vostradeis vem de uma brincadeira com a conjugação verbal, nós tradamos, vós tradeisVostradeis é um profeta desacreditado que consegue prever tudo, menos quando ele vai se foder. Ele é também muito bom em rogar pragas, e suas histórias sempre terminam com as melhores tiradas dele amaldiçoando alguém.

Passamos a cobrir seus trabalhos passados, e ele nos contou por exemplo que fora da esfera do desenho, criou roteiros para o antigo programa de televisão TV Colosso em conjunto com Laerte, Angeli, Glauco e Luiz Gê.

Luis Ge, por exemplo, era responsável por momentos muito hilários como em uma situação que ele queria produzir uma batalhas aerea entre cachorros dirigindo aviões, numa cena que duraria alguns segundos, a produção ficava maluca. Segundo Fernando os melhores momentos dessas colaborações era quando eles se reuniam para fazer os story-boards. As reuniões de pauta eram tomadas pelas historias e pirações mais absurdas, que eles obviamente nunca levariam adiante, como a cachorra Priscila de fio dental, dando mole pro Capachão, etc…

Perto do fim do programa, ao qual ele se dedicou durante 4 anos, sempre dedicado e cumprindo os apertados prazos, ele confessa que quando havia cogitado a desistir recebeu uma ligação dizendo que ele não precisava mais escrever o programa, pois ele havia sido cancelado.

O “trauma” com a cachorrada foi tão grande que um dia ele olhou um xuxu, e o formato da leguminosa o fez lembrar da Priscila. Não pensou duas vezes e deu um chute, fazendo o xuxu voar e ser destruído em mil pedaços.

Fernando discorreu também sobre seu processo criativo, os momentos inesperados quando as historias surgem – fui lá e coloquei meu chinelo, tomei iogurte e a história apareceu! – a busca por um método magico, infalível de criação, que hoje é convencido que não existe, diz já ter testado muitos deles e que suas idéias vem quando ele senta em um sofá e se dedica apenas a pensar. Deitado, aliás, não é uma opção, por razões óbvias.

Falou também  sobre o sentimento de final de ciclo, como agora, quando ele fecha um livro com todo o seu trabalho feito ao longo de anos passados e que não sente vontade de continuar a criar histórias para os personagens daquele livro fechado por um bom tempo. Cita Lourenço Mutarelli, que diz só gostar de ler livros de autores mortos, pra poder ler apenas obras completas – Se ele começa a ler uma série de sete livros e o autor morre antes do sétimo, ele ficará eternamente frustrado por não saber o final da história.

Na faculdade criava cartazes para o centro acadêmico e certa vez fez uma prova sobre parasitologia, toda em quadrinhos – formato que não agradou o professor, mas que foi obrigado a aceitá-lo porque as informações contidas nele estavam corretas O que levou o professor a odiar a iniciativa foi a imagem de um homem defecando ao cobrir o ciclo do parasita.

Confirmamos também a famosa historia da pulga de estimação que se alimentava dele. Segundo o próprio, nos anos 80 era  muito comum sair dos cinemas com uma pulga em si.  Ele desenvolveu um método para catá-las, e passou a cuidar delas dentro de um pote de vidro. Alimentava-as colocando o pote na barriga e deixando-nas se alimentar de seu sangue. Usava a barriga por que era mais prático e cômodo para cocar. Infortúnio da vida foi a crueldade de seu primo que testou um inseticida na pulga e o marcou para o resto da vida após ver a imagem do cadáver da pulga prostrada dentro do vidro.

Ficamos sabendo de algumas curiosidades, como a do dono de uma loja que bancava a Revista Níquel Náusea – Se faltava dinheiro, ele vendia um guarda roupas e nos cobria. Descobrimos também que grande parte de sua família também desenhava e que seu irmao mais velho – tirano –  foi seu primeiro editor, quando o obrigou, ainda criança a fazer uma hq, com prazo e pressão que serviria como homenagem à mãe deles … acabou sendo uma grande escola de acordo com o artista.

Passando ao período que começou na Folha, considerava-se muito amador, até que um dia um editor lhe disse carinhosamente que as tiras estavam ficando muito fracas, e isso funcionou como um tranco para Fernando, que passou a focar com muito mais afinco na criação das mesmas até atingir o sucesso que elas são hoje.

É isso, se você chegou até aqui espero que tenha curtido o texto.

Grande abraço do Gordo e até o dia #3 da Gibicon.

  • Poutz, FerGonzales, el ligeirinho dos Quadrinhos é meu brodi desde 1984, ou 85, desde que ele tinha uma caravan que bebia moooooito, e fomos eu, ele, marcatti, spacca e MZK pra Araxá no Encontro de Quadrinhos… pusta cara maneiro!