Gibicon: Dia #3

Fala meu povo seboso, leitores do Cocô na Cuia! Bem vindos ao post final da cobertura da Gibicon de Curitiba.

Final? Mas pera aí caralho, na Gibicon não eram quatro dias de evento? Como assim vocês vão acabar tudo no terceiro?

É isso mesmo, como não conseguimos designar ninguém para cobrir o último dia de evento no domingo, dia 28, decidimos abortá-lo de nossa cobertura, mas o lado bom é que o número de palestras e debates previstos nesse dia eram muito pequenos, portanto não perdemos muita coisa.

Aos detratores, a mulherada compareceu em peso no evento!

Aliás, fica a dica a aqui  mais uma vez, para que os organizadores repensem para uma próxima edição, e concentrem mais eventos no sábado e domingo, permitindo que os trabalhadores e operários assalariados (como o pessoal aqui do CnC) tenham a oportunidade de também participar das oficinas e palestras oferecidas, por que afinal, vamos falar sério, um debate com grandes autores, numa quinta-feira as 2 da tarde não dá né?

Apesar de toda a breguice inerente em sua origem, o Memorial é um lugar batuta!

Mas vamos por partes, como diria meu amigo Jack. Nesse último sábado dia 29 eu comecei o dia curtindo uma palestra de Danilo Beyruth, criador de Bando de Dois, que acaba da lançar sua primeira Graphic Novel pela MSP do Maurício de Souza. Dali, parti para uma sessão de compras nos stands da feira que mais uma vez furou meus bolsos, seguido por uma enriquecedora palestra sobre o mercado editorial Brasileiro, com grandes nomes como Franco de RosaCassius Medauar, Erico Assis e Guilherme Kroll.

Melhor cosplay do evento! A cara do CnC

Finalizei o dia encontrando meus parceiros do CnC, Balão e Boobs e tomando aquele chope gelado numa tarde escaldante de sábado o que acabou coroando com chave de ouro nossa participação no evento.

Que venha a próxima edição em 2014, farei um saldo final do evento, mas por ora vamos aos detalhes do que rolou de bom nesse sábado.

Danilo Beiruth – Criação de HQs

Cheguei atrasado, pra variar, afinal acordar as nove da madrugada num sábado ninguém merece!

Danilo indignado por que eu tinha chegado atrasado.

Entrei na sala dez minutos depois do início da palestra, suando como um porco, usando uma camiseta apertada com o logo do Cocô na Cuia. Quem manda deixar as coisas pra última hora? A camiseta, a palestra…

Danilo já havia iniciado sua apresentação, com slides, contando uma resumida história das HQs de forma engraçadinha, cobrindo desde os tempos das cavernas, indo pelo antigo Egito, passando por Peanuts, animações e Frank Miller. Ele tem uma boa didática e boas referências, mas fato é que o que me interessava mesmo era saber sobre o criador e seu processo de criação, não sabia, portanto se estava no lugar certo pra isso, pois o nome da palestra era apenas “Criação de HQs” e não “Processo criativo de Danilo Beyruth“… parei de ser chato comigo mesmo e me deixei curtir a palestra…. Valeu a pena, pois da metade pra frente ficamos sabendo mais sobre tudo aquilo que eu esperava e aí sim o negócio ficou empolgante, especialmente pra quem faz quadrinhos, como eu.

Danilo começou a viajar, no bom sentido, nos estilos de narrativa. Ele se diz muito fã e adepto do uso de páginas de quadrinhos justapostas, usando-as como complementares, para construção do suspense e surpresa. Repassamos vários exemplos de Frank Miller, inclusive uma de minhas seqüências favoritas de Batman Ano 1 a qual reproduzo abaixo:

 

 

 

Passamos a ouvi-lo falar sobre a estrutura de histórias, de onde elas surgem, as ideias aleatórias, os fragmentos que surgem do nada e que se perdem, caso você não esteja munido de um bloco de notas e uma poderosa caneta. Explicou que no caso da história de Astronauta: Magnetar, o que ele tinha como base era um protagonista, com determinadas características e toda teve que se desenvolver a partir desse simples conceito, não em uma situação específica, mas com um personagem em si. Já em Bando de Dois a história surgiu depois que ele viu e se impressionou com uma foto das cabeças de Lampião e seu bando e a partir do impacto dessa figura desenrolou-se toda a ideia do álbum.

A apresentação vai além, ele passa pelos diferentes tipos de temas que se pode focar ao trabalhar um enredo, a demarcação de objetivos quando se roteiriza uma história, descobrimos que Bando de Dois foi fomentado por um desafio pessoal, o da crença que não era possível fazer boas histórias em quadrinhos sobre cangaceiros. Ficamos sabendo também que Necronauta surgiu a partir da ideia desse nome “legal” e somente depois ele começou a esboçar personagens.

Danilo nos mostra imagens de suas dezenas de cadernos de desenho, anotações, fragmentos que ele utiliza para criação de suas histórias. De longe a melhor parte da palestra. Vemos um trecho de uma história feita por ele, de uma família canibal cujo filho mais novo quer parar de comer carne humana para poder se deliciar com o lanche dos colegas. Nesse trecho temos a chance de ver o esboço inicial da página e o resultado final da mesma e é engraçado como o esboço tem muito mais força e expressão narrativa que a versão finalizada. Isso é algo que acontece muito com as minhas imagens e penso ser parte do processo de evolução artista, saber o quanto refinar, quando parar, todas questões pertinentes no processo de produção da imagem.

Chegamos às suas 5 práticas mais importantes para um quadrinista aspirante, muitas delas senso comum, mas ainda um conjunto valioso de afirmativas que podem ajudar principalmente os quadrinistas aspirantes e até mesmo os com tempo de estrada:

1) Ande sempre com o bloco de anotações – Não se permita perder nenhuma ideia, por mais aleatória que pareça, muitos trabalhos do Danilo utilizaram ideias rabiscadas anos antes e isso é mais comum do que se pensa.

2) Leia livros, músicas, filmes de outras áreas que não seja do seu nicho, restrito às suas áreas de interesse.

3) Mantenha uma hora de prática por dia, pelo menos. É importante a constância, para que seu trabalho ganhe rapidez, fluidez e estilo.

4) Seja muito autocrítico e sempre analise o trabalho dos seus ídolos.

5) Quadrinhos são uma arte de custo-benefício muito baixíssimo, leva-se muito tempo e é preciso muito preparo para se obter um produto de retorno muito pequeno.

Panorama do Mercado de Quadrinhos Brasileiro

Érico Assis, Franco de Rosa, Cassius Medauar, Guilherme Kroll

Essa palestra deveria ter sido obrigatória para todo aspirante a quadrinista ou mesmo aos já profissionais do meio. Tivemos a oportunidade de ouvir três representantes de editoras de perfis e níveis muito diferentes, que nos permitiram pintar um painel bem realista do mercado editorial brasileiro.

Da esquerda para a direita: Érico, Franco, Cassius e Guilherme.

Do lado de Guilherme Kroll pudemos visualizar como funciona uma editora pequena, de catálogo modesto e tiragens mínimas, que mescla sua coleção de livros e gibis. Ficou claro que quanto menor a editora mais flexibilidade ela terá na hora de ousar com ideias novas, de baixo custo, como a própria Balão Editorial do Guilherme, que acaba de disponibilizar todo o seu catálogo de livros no formato digital. Há uma maior variedade de formatos de publicação justamente tentando viabilizar o maior número de títulos, com o menor preço e tiragem possível. Por outro lado ele sofre muito no quesito distribuição uma vez que tem acesso mais difícil às parcas formas de distribuição de livros no Brasil, e devido às poucas tiragens acaba encontrando dificuldade de desova de seu catálogo em grandes redes de livrarias e quem dirá em bancas de jornais.

A JBC representada por Cassius já trouxe a visão de um extremo oposto, de uma editora grande com distribuição em banca a nível nacional (ainda que setorizado). Por conta de sua amplitude e conservadorismo, todos os títulos lançados são muito bem estudados de forma a terem retorno garantido. A editora acaba não abrindo espaço ao quadrinho nacional tampouco à obras menos populares e populescas. Medauar admite que eles tem intenção de publicar algo de autoria brasileira, como eles chegaram a fazer no passado com os Combo Rangers de Yabu, mas que a curto prazo isso ainda não será uma realidade.

Franco de Rosa trouxe a voz da experiência, ele que já editou centenas de títulos famosos como o Fantasma, 100 Balas, Lúcifer e foi parte importante de várias editoras, como a Ópera Graphica, a Grafipar, Nova Sampa e Mythos. Hoje trabalha e é proprietário da Kalaco além de editar e prestar serviços de edição para várias outras editoras. Ele nos conta que tem se concentrado muito em trazer à tona artistas brasileiros antigos que já foram muito populares em gêneros como quadrinhos de terror e eróticos e que hoje encontram-se fora do mercado.

Em resposta à uma pergunta do CnC sobre a ascensão das iniciativas de Financiamento Coletivo, crowdfunding, e sua possível relação com iniciativas de editoras, maiores ou menores, em comparação ao que a própria Top Cow recentemente fez nos estados Unidos, os editores foram categóricos em dizer que além do fato desse movimento ser ainda muito incipiente no Brasil, o fato de uma editora, e não uma autor, estar por trás da proposta de solicitação de dinheiro para tocar pra frente um projeto, pode acabar tirando a credibilidade do mesmom perante à comunidade financiadora. Concordei plenamente.

Quando uma artista aspirante perguntou qual era o caminho que os quadrinistas deveriam seguir para apresentar suas propostas de trabalho, como os editores gostariam de ser apresentados a uma proposta, tanto Guilherme como Cassius foram categóricos ao afirmar que analisariam apenas trabalhos prontos para serem lançados, de qualidade absurdamente boa e que já viesse focada para um determinado mercado. O grande problema, segundo eles, é a falta de senso crítico e informação por parte dos artistas e criadores brazileiros, uma questão cultural mesmo, sendo que a maioria chega com trechos de trabalhos, esboços, ideias não desenvolvidas e os abordam querendo ser alocados em uma revista mensal, geralmente cópia de algo que já existe e é sucesso. Franco de Rosa, surpreendentemente nos conta que com ele ocorre o exato oposto, muitos artistas bons, com trabalhos prontos chegam até ele, que sofre por não conseguir colocá-los no mercado devido à quantidade.

Na última meia hora da palestra eles compartilharam ótimas histórias dos bastidores do mercado, como na década de 80 quando um aspirante a artista do interior do Cafundó dos Judas entrou em contato com Franco, pedindo uma oportunidade, e ele o respondeu elogiando seu trabalho e colocando como brinde a cópia de uma revista dentro do envelope. O resultado foi que uma semana depois o rapaz estava lá em São Paulo, com a carteira de trabalho pronta pra ser assinada e querendo saber quando começava a trabalhar. Franco obvia e infelizmente teve que despachar o garoto de volta pra sua terra.

Descobrimos também através de Cassius, que os quadrinhos dos Cavaleiros do Zodíaco originalmente levaram mais de 5 anos pra serem negociados com o velho Kurumada devido ao velho e lento método de negociação dos japoneses e que foi esse um dos fatores motrizes da nova onda de publicação dos quadrinhos nipônicos no seu formato de leitura original, invertida à ocidental, que antes tabu, acabou virando um sucesso sem precedentes no mercado editorial. Dragon Ball, por exemplo, chegou a vender mais de 130.000 edições por mês à época.

Mais perto do fim, quando questionado o por quê de Akira nunca mais ter sido publicado no mercado tupiniquim após a edição colorida da editora Globo nos anos 90, Cassius revelou que o próprio autor, Katsuhiro Otomo, não autoriza a publicação em nenhuma parte do globo além dos Estados Unidos, pois ele não acha que o resultado gráfico final da série seja aceitável (what?) e deseja redesenhá-la por inteira antes de relançá-la. O problema é que ele continua se envolvendo em um projeto atrás do outro e não há perspectiva a curto prazo de isso acontecer. Cassius, entretanto, ano após ano tenta ressuscitar essa negociação.

Para finalizar, ao anunciar os lançamentos de cada editora, somos presenteados em primeira mão com a possibilidade de ver as primeiras edições de Kenshin, o bom Samurai X, agora com o nome original a pedido dos proprietários da franquia e o novo e inédito volume de Evangelion, número 13, que será lançado dia 2 de Novembro, simultaneamente a vários lugares do globo inclusive Brasil.

Cassius e os últimos lançamentos da JBC

Saldo Final.

Mas e aí, valeu a pena essa tal de Gibicon?

1000% valeu!

Um dos meus sonhos de infância sempre foi ver um evento desse porte (ou maior) acontecendo no Brasil. O fato de ele estar crescendo na nossa Curitiba é fantasfodástico demais pra expressar. Deixo aqui desde já meus parabéns e minha admiração aos criadores, organizadores e incentivadores desse evento e já estou contando as horas para a próxima edição que foi confirmada apenas para 2014. Sim, a partir de agora a Gibicon foi estabelecida como um evento Bienal em Curitiba, o que eu acho perfeito, dado às características do nosso mercado além de dar chance à grandes eventos da área em outros estados de acontecerem nos anos ímpares, como a FIQ de Belo Horizonte, que hoje é a maior do País.

Balão e Esposa abduzidos pela tropa.

É isso aí meu povo, foram 4 dias (3 no meu caso) mergulhado numa realidade paralela repleta daquilo que eu mais amo nessa vida, não tem como não terminar esse período com um sorriso no rosto, um cansaço físico pela correria, mas com a cabeça repleta de bons momentos e muita informação.

Pra finalizar no estilo Curitiba de ser, O Gralha e a Vampira Lésbica

Aquele abraço molhado do Gordo e até a próxima!

  • Angelica

    a shiera foi melhor cosplay do evento ???