Um Corpo que Cai – Vertigo – Review

 

Instigado pelos resultados da pesquisa decenial realizada pela respeitada revista inglesa de cinema, Sight & Sound, resolvi assistir e tentar entender por que Um Corpo que Cai, Vertigo no original, filme de 1958 de Alfred Hitchcock, foi eleito pelas centenas de críticos e diretores de cinema de todos os cantos do planeta como o maior filme de todos os tempos, levando à bancarrota Cidadão Kane de Orson Welles, que dominava o topo da lista a mais de 50 anos.

O Gordo aqui suou (como sempre) pra chegar a uma conclusão. Não foi uma jornada nem de longe torturante, muito pelo contrário, de fato, qualquer desculpa para curtir um filme do velho Hitchie é mais do que bem vinda.

Mestre Hitchie todo faceiro dirigindo uma Kim Novak semi-nua!

Quero já esclarecer que de forma alguma o meu intuito era forçar a barra pra pura e simplesmente compreender e concordar com o resultado da pesquisa para vir aqui e pagar de Gordo Cabeçóide. Entrei nessa jornada de mente aberta, para o bem ou para mal, para transformar esse em um dos meus filmes preferidos, execrá-lo à exaustão ou simplesmente ignorá-lo.

Fato é que ao correr a película pela primeira vez, minha reação foi provavelmente a mesma do público e da crítica contemporânea à ele. Pendi por um momento ao mesmo julgamento da revista Variety, que dizia que o filme mostrava toda a maestria técnica do diretor, mas que era longo e lento demais para o que seria basicamente um filme de suspense psicológico e assassinato. Quase concordei com o que fora publicado na conceituada New Yorker que à época tachou o filme como uma improvável baboseira sem sentido ou mesmo com a própria Sight & Sound que execrou o método Hitchcockiano em que ele repetia seus efeitos e técnicas em todos os filmes, mas que em Um Corpo que Cai, além de repetí-los, o fazia em câmera lenta – maldade aí!

O retrato de Carlotta Valdes, o espiríto possessor da personagem de Kim Novak.

Estava indignado! Não é possível que esse, justo esse filme tenha batido Cidadão Kane. Comecei a ler, dezenas de artigos, críticas, trechos de livros sobre o mestre e sobre o filme, mas não adiantava, todos eram muito subjetivos. Eu sou formando em Engenharia caramba! Precisava de alguns apontamentos objetivos sobre as qualidades do filme, explicações lógicas, quiçá mensuráveis.

Nessa busca pela lógica um padrão brotou de todas aquelas leituras. Saca o filme Uma Mente Brilhante? Todas aquelas palavrinhas brilhantes ao redor do gordo malucão, no caso eu, e de repente salta uma que resolve toda a equação? A palavra nesse caso era uma frase. Assista de novo! Sim, esse foi um comportamento recorrente relatado em quase todos aqueles textos. Foi o que eu fiz.

E eis que ouço o clique.

Clique? Hein? – James Stewart como o perturbado protagonista de Vertigo, John “Scottie” Ferguson

No fim das contas, isso acabou se revelando o grande segredo desse filme, aquele momento de epifânia causada quando se retorna à ele. O regresso é definitivamente necessário, refazer os percursos da trama, de novo e de novo, assim como o próprio roteiro, o comportamento dos personagens, cíclicos, espiralóides, girando em torno de um mesmo ponto, sempre em expansão, mas nunca fugindo do destino final. Tá confuso? Tá subjetivo? É … bem vindo ao meu mundo parágrafos atrás.

Não temos como progredir sem falar da trama em si, portanto se o filme é algo inédito para você, compre-o na Apple Store, alugue na sua locadora, assista no Netflix, encomende da Amazon, o que for, mas veja e retorne mais tarde. Vale a pena.

Scottie agarrado no parapeito e mirando o precipício – Situação recorrente no filme, física e psicologicamente falando.

Baseado no livro D’Entre les morts (Boileau-Narcejac, 1954), o roteiro adaptado por Alec Coppel e Samuel Taylor nos apresenta de imediato ao Investigador John “Scottie” Ferguson (James Stewart, o mesmo de Janela Indiscreta), que no meio de uma perseguição policial pelos telhados de San Francisco, California, cai e se agarra a uma canaleta a uma altura que o faz ter um ataque de acrofobia, deixando-o sem ação. Seu colega policial, que não consegue alcançá-lo acaba escorregando e mergulhando em direção à morte. Scottie se aposenta devido ao trauma causado pela culpa. A cena toda é mais rápida do que essa minha descrição enrolada, mas ela é o mote recorrente da história toda, o medo que traumatiza, a culpa que não se redime, temas, aliás recorrentes de toda a obra de Alfred Hitchcock.

Midge Wood, minha personagem xodó nesse filme!

Scottie passa a levar uma vida banal ao lado de sua namorada Midge (Barbara Bel Geddes), uma pintora, mulher muito moderna e independente para a década de 50 retratada ali, de longe a minha personagem favorita no filme todo, até que um antigo conhecido de Scottie chamado Gavin Elster (Tom Helmore) o contrata para investigar e proteger sua esposa Madeleine (a estonteante Kim Novak), que anda sofrendo crises de personalidade recorrentes, desaparecendo misteriosamente por horas a vagar pela cidade, desligando-se de sua identidade e assumindo a persona de Carlotta Valdes, uma antepassada sua com uma história trágica que terminou em suicídio.

A primeira aparição de Kim Novak como Madeleine – Já não se fazem mais divas do cinema como antigamente.

Desse ponto em diante tem início um longo trecho, e talvez um dos mais marcantes do filme, são quase vinte minutos sem diálogos, uma quebra de paradigma total para os filmes Holywoodianos da época, onde acompanhamos a peregrinação de Madeleine por San Francisco e Scottie a observando de longe, invisível, coletando pistas, sendo convencido e convencendo o expectador da possessão da loira, colocando a certeza de que estamos assistindo à uma trama sobrenatural.

Os cenários deslumbrantes de San Francisco, “pequenas porções de silêncio e solidão”, conforme descrito pela maior crítica de Hitchcock, Robin Wood.

Scottie é arrancado dos bastidores quando se vê obrigado a salvar sua diva louca de uma tentativa se suicídio em Fort Point, abaixo da ponte Golden Gate. O investigador aposentado a leva pra casa e subitamente uma intimidade surge entre os dois, o que acaba levando ao óbvio enlace amoroso. Madeleine torna-se sua obsessão, ele a quer curada, inteira, sua e pra isso a leva para uma Missão Espanhola que aparecia em suas visões, na tentativa de livrá-la do Exú de Carlota. Chegando lá, ela reconhece vários detalhes do local, mas acaba entrando em transe e corre em direção à torre do sino da igreja da Missão. Scottie, preocupado, vai atrás dela na tentativa de evitar uma besteira, mas a sua acrofobia o trava novamente e o impede de alcança-la antes que a loira se lançe à morte nos telhados da capela.

A torre da Missão Espanhola, cenário das principais tragédias que dão tom ao filme.

Opa, era só isso? Acabou o filme? Fim do tormento? Que nada, o protagonista é obrigado novamente a lidar com a culpa, mais uma vez o seu medo, a sua fraqueza o impediu de salvar a pessoa que ele amava. Ele entra em depressão profunda e passa um longo tempo numa clínica psiquiátrica, sendo cuidado por Midge.

Scottie doidão, avistando Kim Novak em todos os cantos da cidade.

Ao sair do sanatório, a vida de John passa a ser perambular pela cidade e lidar com visões de sua amada, em todos os cantos da cidade, em todos os lugares, em todas as cabeças femininas de cabelos loiros até o dia em que ele avista a morena Judy Barton, novamente Kim Novak. Ao mesmo tempo que a semelhança é direta, a personalidade em nada se assemelha à Madeleine. Judy é uma mulher mais reles, vulgar, ousada e liberal, enquanto a finada Sra. Elster era sóbria, soturna, uma mulher de classe. Isso não impediu Scottie de invadir o apartamento de Judy e convidá-la para jantar. Relutante a princípio, ela acaba cedendo e eis que o filme apresenta a sua maior virada. Judy senta-se e começa a escrever uma carta de confissão para Scottie onde revela que Judy e Madeleine são a mesma pessoa. Ela havia sido contratada por Gavin Elster, marido da verdadeira Madeleine, para que numa trama mirabolante e nada crível ela pudesse se passar por sua esposa, de forma que ele se livraria da verdadeira e botaria as mãos em sua herança.

Scottie dando um “chega mais” em Judy, sua nova/velha obsessão.

Quem havia sido lançada do campanário era a verdadeira Sra. Elster, que já havia sido enforcada pelo marido. Todo o desenlace desse plano residia na crença de que Scottie teria um novo ataque de pânico ao subir as escadas atrás de Madeleine, o que de fato aconteceu.

Ah! Quer dizer que vc conseguiu prever que eu teria um ataque de acrofobia a um lance de escadas do local onde vc matara sua esposa e assim concluir seu plano maligno? Conte-me mais sobre isso!

Sim, o roteiro é falho, bobo, mas no fundo isso de nada importa. A grande jogada aqui é a subversão do enredo, o expectador passa a saber de coisas que o protagonista não tem conhecimento. Até então tudo que acontecia no filme era o acompanhamento das descobertas de Scottie. Agora nós sabemos da verdade, o grande mistério foi revelado, mas peraí, ainda tem um terço do filme pra eu ver! É aí que reside uma das características chaves desse filme, o abandono da fórmula, a inversão das expectativas.

Voltando à trama, após nos entregar a verdade, Judy rasga a carta e resolve se entregar a uma relação real com Scottie com a mesma força e obsessão com que ele passa a querer transformá-la na sua Madeleine perdida. Um novo filme se desenrola. A mocinha passa a ser enredada pelo protagonista por todos os lados, ele limita suas atitudes, a faz vestir as mesmas roupas da falecida, manda descolorir seu cabelo, tudo para tentar alcançar a sua redenção, um perdão pela sua fraqueza. Mas Judy não é vítima em nenhum momento, tanto pelo que ela fez e nos deixou saber, quanto pela tentativa de expiar a sua própria culpa por ter dado a volta nesse homem que ela passou a amar.

Pega leve amor, estou me sentindo pressionada!

Um jogo de paranóia e obsessão nos conduz nesse ato final até a cena sublime em a transformação de Judy é completa em uma cena antológica em que ela sai do banheiro de seu quarto, envolta por uma névoa verde, etérea, sublime, enlaça Scottie num beijo nababesco, que o leva ao passado e o completa no presente.

Tudo parecia se fechar para um final feliz, mas Scottie nota que Judy usa uma jóia que pertencia a Madeleine. A mesma jóia encontrada na pintura de Carlota Valdez. O Investigador sai de seu transe e liga os pontos facilmente. Aturdido pela revelação ele à arrasta de volta à mesma Missão, levando-a a força para o campanário, desmascarando a loira em meio a um diálogo forte, extremo e traumático o que acaba fazendo-o perder o seu pavor de altura. Seu medo foi curado. As feridas fora expostas. Judy parece realmente querer se redimir. Scottie quer ouvi-la, mas eis que surge das trevas uma freira. Sim, uma freira! Judy assustada e aterrorizada pela imagem negra emergindo das sombras, lança-se ao mesmo destino da verdadeita Madeleine. A freira toca o sino e clama por Deus. Scottie olha incrédulo para o mesmo telhado. Fim. Abrupto. Seco. Nada palatável.

Pu-la! Pu-la!

Entende agora o por que é tão fácil julgar esse filme pelos nossos instintos primários? Falhas existem e não são poucas, estruturais, de diálogos, de convencimento. Então de onde é que esses caras tiraram que esse filme é a película hiper-suprema-do-mega-max? Bem, há uma série de caminhos a seguir. Tentemos alguns.

Podemos começar olhando os aspectos técnicos. Para toda a tecnologia de cinema disponível na década de 50 o filme é irretocável, como são todos os filmes de Hitchcock. Isso nunca foi um problema e tampouco é o destaque principal aqui. É possível observar experimentações na fotografia, guiadas por sentimentos e simbolismos, seja nos recorrentes takes de San Francisco e seus lugares históricos, transformados em cenários frígidos e de beleza surreal, ou na antológica cena em que Judy termina sua re-transformação em Madeleine e surge envolta numa névoa verde, numa imagem quase etérea e profundamente marcante.

Tô cheia de efeito e nem existia Photoshop!

Um corpo que cai também ficou marcado por um efeito especial de vertigem, que por sinal ganhou o apelido de Vertigo Camera, utilizado nos momentos em que Scottie tem seus ataques de Acrofobia. A distorção de imagem é alcançada quando se afasta a câmera do objeto ponto de foco ao mesmo tempo em que se aumenta o efeito de zoom. Isso virou uma febre depois desse filme e o efeito continuou sendo utilizado à exaustão em diversos filmes e séries até hoje.

Mas se o aparato técnico do filme ainda não justifica o seu posto de primeiro colocado, seriam as quebras de certos paradigmas de dramaturgia, a subversão do suspense e o romance não convencional o que induziu todos esses profissionais a se apaixonarem por ele?

Em miúdos, a estrutura e os componentes de uma trama de suspense não são os elementos que realmente importam aqui. Quando o filme termina, dificilmente vc se preocupa com o destino do grande vilão e arquiteto da trama rocambolesca, por que isso não importa. O que surge a partir daí é o que conta. No momento em que o ardil é revelado por Judy, pouco depois da metade da história, ocorre uma anarquização explícita dos cânones imortalizados até então. Até então o expectador era acostumado a ter a mesma quantidade de informação que o protagonista, o suspense era construído na informação desconhecida por ambos. Agora o suspense reside na dúvida e na expectativa do comportamento, da reação de Scottie quando souber da verdade. O expectador sabe mais que o protagonista e a ansiedade se constrói em cima dessa antecipação.Enfatizo que isso era uma novidade para o expectador de 1958, é preciso o distanciamento histórico e o entendimento do que veio antes para entender a importância desse tipo de ousadia em um filme mainstream. O filme ainda é um grande entretenimento por si só, mas muito de seu valor se revela quando analisado nessa perspectiva.

Se uma já é suficientemente fatal, duas é tragédia na certa!

Há ainda mais a ser notado no jogo dramático proposto, como a história de amor que não se concretiza, que se fortalece pela culpa, pelo martírio, pela obsessão. A mocinha criminosa, falsa em todos os aspectos, mas que ama, se entrega, mesmo que influenciada pelo arrependimento. O herói covarde, que só falha, e falha, e volta ao mesmo ponto, não evolui. Essa ciclicidade aliás é uma das grandes marcas do roteiro, e o que fortalece o próprio nome original do filme, Vertigo. Os personagens estão sempre voltando aos mesmos cenários conhecidos no primeiro terço do filme, seja em busca de respostas ou de redenção.É o nascimento de um cinema conceitual, os ciclos estão presentes do título à fotografia, passando pelo roteiro e pela trilha sonora. O filme como um todo cresce em cima disso.

Madeleine hipnotizada pelo retrato de Carlotta Valdes

Como parte desse todo, mas de fato o que considero o maior legado desse filme, está a maneira como o visual é utilizado para contar a verdadeira história. Por um lado o filme se fortalece naquilo que não é mostrado, mas no que pode ser inferido. Pequenas imagens ou longos takes silenciosos dizem muito mais sobre os personagens do que qualquer linha de diálogo. Os grandes silêncios na realidade são muito bem acompanhados pela trilha sonora wagneriana de Bernard Herrmann, um clássico instantâneo composto basicamente pelas mesmas idéia de ciclos, de retorno às origens.

Scottie alucinando após perder a sua loira.

Vertigo é um filme de camadas, e elas dificilmente se revelam após a primeira assistida e é daí que vem o fascínio que ele exerce em quem faz e estuda cinema. É um filme que conseguiu influencia uma geração inteira de cineastas (particularmente os da Nouvelle Vaugue Francesa) que prestaram suas homenagens em vários de seus filmes, como L’année dernière à Marienbad de 1962 dirigido por Alain Resnais ou La sirène du Mississipi de 1970, por Truffaut

O filme se destaca em meio aos demais de todas as fases de Hitchcock e faz por merecer ser um marco da história do cinema.Reconheço a importância e as suas qualidades, pessoalmente ainda não concordo que sua relevância seja maior que a de Cidadão Kane para o cinema como um todo, mas esse é o tipo de posição que a própria história se encarrega de não transformar em um cânon imutável, e no fim das contas isso é resultado de uma enquete, uma grande e respeitável pesquisa, mas ainda uma opinião, por mais embasada que seja, não precisa ser unânime.

Termino de escrever essa resenha após assistir ao filme pela terceira vez em um período de três semanas, e acabo de achar mais uma dúzia de detalhes que me fazem querer retornar. É preocupante o fato de que já não encontro mais fatores exatamente objetivos para explicar a fascinação que ele vem me causando, é definitivamente um processo cumulativo e cada vez mais afundo na subjetividade que eu tanto queria fugir. Razão mais que suficiente para encerrar esse texto por aqui, antes que assim como Scottie eu saia de um abismo e acabe agarrado a um precipício.

Grande e vertigionoso abraço do Gordo.

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Quer ler mais sobre Vertigo? Seguem algumas boas referências:

Revista Sight & Sound – Volume 22 – Número 9 – páginas 56 e 57.

Revista Sight & Sound – Volume 22 – Número 8 – páginas 40 à 47. Página de Vertigo na Wikipedia (em inglês): http://en.wikipedia.org/wiki/Vertigo_(film)

Página de Vertigo no IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0052357/

Análise do filme em blog da Guardian: http://www.guardian.co.uk/film/filmblog/2012/aug/10/my-favourite-hitchcock-vertigo

Análise de Norman N Holland sobre o filme: http://www.clas.ufl.edu/users/nholland/vertigo.htm