Frankenweenie – Review – por Gordo

 Finalmente um filme, na verdade sua terceira animação, com a marca Tim Burton da Era Disney que quase faz jus ao legado do diretor que já foi um dos meus preferidos, e hoje amarga o auge de um longo período de estagnação criativa que se iniciou lá atrás em Peixe Grande e suas histórias maravilhosas.

Shelley Duvall e Daniel Stern, os pais de Victor, com o Sparky original em 1984.

História inocente e previsível, mas que serve ao propósito do diretor de curtir os seus brinquedinhos preferidos no seu parquinho de areia, Frankenweenie é na realidade o remake do segundo curta-metragem do diretor, filmado em 1984 e que contava com atores como, veja só, Shelley Duvall e uma Sofia Coppola muito jovem e muito loira.

Sofia Coppola, como a garota-emo-bizarra da vez.

O lançamento dessa primeira versão foi abortado pelos estúdios Disney, por julgarem ser um produto não adequado às crianças. Curiosamente trinta anos depois o mesmo estúdio investiu pesado no remake em animação da mesma história, lançando um filme ainda mais sombrio do que o original. Parábolas de Hollywood.

Essa nova versão de Frankenweenie é uma animação em stop-motion, as velhas massinhas de modelar em movimento, estilo perfeito para incorporar muitas das influências clássicas de Burton como o expressionismo alemão, as pinturas de John Grimshaw, os filmes de Vincent Price, finado ator que empresta suas feições ao molde do Professor de Ciências, dentre outras. Temos um conjunto do melhor de tudo que o diretor já fez, mas ao mesmo tempo não há preocupação alguma em adicionar novidades ao caldo.

Sparky na nova animação

A cinematografia é um show a parte, além das referências já usuais do diretor aos filmes B de Ed Wood e aos filmes clássicos de monstros da Universal, são nas memórias pictóricas dos grandes clássicos Hollywoodianos da década de 50 que a fotografia P&B do filme se faz, enfatizando os cenários de época fisicamente modelados à perfeição e fazendo excelente uso do 3D na valorização dos volumes e sombras dos modelos e dos cenários.

Apesar do esmero técnico, a sensação de Deja Vu é perene durante toda a projeção, seja pelo uso dos colaboradores habituais de Burton como o fantástico compositor Danny Elfman, seja pelas paisagens do subúrbio norte-americano habitados pelo protagonista Victor e sua trupe, rica e detalhadamente construídas pelo designer Rick Heinrichs.  Ao observar esse cenários, aliás, é impossível não achar que a qualquer momento surgirá uma escultura de grama do Edward Mãos de Tesoura em frente às casas.

A caracterização dos personagens também padece da repetição estilística, em parte pelos traços semelhantes demais aos personagens das animações anteriores de Burton, em parte por seguirem a cartilha gótica onde todos parecem variações de Johny Depp, Winona Ryder e Helena Bonham Carter, o que não quer dizer que os personagens não sejam ótimos, pelo contrário, são tão bons quanto qualquer personagem clássico de Burton, especialmente a Garota Estranha, uma loira esquálida psicótica com seu gato satânico que prevê futuros sinistros de acordo com o formato de seu cocô. É gargalhada à primeira assistida.

O roteiro é enxuto, aborda diretamente a história de Victor, que após perder inesperadamente seu cão Sparky em um acidente de automóvel, resolve usar o poder da ciência, fácil assim, para trazer de volta à vida seu melhor amigo canino. Adicione a isso uma turma de desajustados competindo pelo primeiro lugar em uma feira de ciências, um pouco de cultura imigratória holandesa, e pequenos cadáveres de bichinhos de estimação virando monstros descomunais e vc tem um filme agradável, que serve a família toda e que sabe a hora de terminar sem alongar-se desnecessariamente.

Frankenweenie me soa como um grito de desespero de Tim Burton. Um desejo reprimido de retomar os temas e valores que lhe são caros em contraste aos filmes pasteurizados e demasiadamente infantis que tem produzido.

Uma agradável revisita ao básico ele conseguiu, que agora retorne aos trilhos e dê um passo à frente, pois não vejo a hora de eu voltar a ser um fã ardoroso.

 

Abraços sinistros do Gordo!

Cara de espanto do gato-vidente-cagalhão ao ver a nota boa dada pelo Gordo rancoroso!