Selvagens de Oliver Stone – Review

“Ao que me parece, estamos em uma era sem regras…”   –  Oliver Stone

Oliver Stone chegou em seu escritório numa escaldante tarde de verão em Los Angeles, olhou para a sua secretária balzaquiana, procurou ignorar a verruga peluda e encorpada de seu queixo, limpou sua mesa com uma braçada e a comeu ali mesmo, a secretária, com paixão mas sem carinho, sem consideração, gozou litros, largou-a ali, desconsolada, trancou-se em sua sala, acendeu um charuto de maconha o qual fumou acompanhado de uma garrafa de tequila 100% agave, enquanto assistia a um capítulo gravado em seu TIVO de A Feia mais Bela, levantou-se, arrancou com força um poster emoldurado do não tão grande Alexandre de Colin Farrell, resquício de um passado errôneo que ornamentava sua parede, abriu o cofre que atrás se escondia, pegou a sua MG 42, relíquia de guerra e atirou sequencialmente em 360 graus destruindo suas paredes, prateleiras e o vaso ornamentado paquistanês que havia ganhado de uma de suas amantes no ano anterior, jogou a arma ao chão, libertou seu membro ereto e deu aquela mijada, guardou-o, derramou o resto de tequila sobre a área infectada, riscou um fósforo, incendiou seu estúdio e berrou: Foda-se essa merda…. logo em seguida ligou aos seus amigos produtores executivos que o esperavam em uma conferência e disse: Estou pronto para dirigir Selvagens.

Ben, O e Chon – O trio protagonista!

É óbvio que nenhum pedaço dessa merda aconteceu, mas ela consegue ilustrar em um longo parágrafo, afinal sou um gordo assumidamente prolixo, todos os sentimentos que me assaltaram a mente quando saí do cinema após assistir Selvagens, a mais nova empreitada de Oliver Stone, adaptação do romance de Don Winslow.

Pô, John Travolta está no filme e você nem pra citar isso no corpo da sua crítica Gordo Maldito? Pois é… está aí a foto como menção honrosa.

Sou um fã confesso e envergonhado desse diretor. Apesar dele ter feito sua fama dirigindo grandes filmes como Platoon e Wall Street ou escrevendo Scarface, Oliver vive até hoje à sombra do sucesso retumbante do passado e numa busca incessante pela fórmula e o momento que o fizesse sentir novamente o gosto do sucesso. Em Selvagens ele não encontrou essa fórmula. Na realidade ele nem se deu ao trabalho de procurá-la. O diretor mandou tudo à merda, a coerência da fotografia, a coesão do roteiro, a seriedade do desenvolvimento psicológico dos personagens e ainda fez questão de adicionar uma série de elementos polêmicos, !mamilos!, como uma relação a três sem neuras, liberação da maconha e personagens mexicanos estereotipados. Bem, foi a melhor coisa que ele podia ter feito!

O, de Blake Lively – Por que ela não era assim no filme do Lanterna? Podia ter salvado o filme….#soquenao

Selvagens não é um marco do cinema, não é um grande filme autoral, pois lhe falta personalidade em muitos momentos, está longe de ser lembrado como um ponto alto da carreira de Stone, mas é um filme muito bom de assistir. Diversão pura. Mesmo revisitando uma série de temas e estilos já demasiadamente explorados, consegue trazer um certo frescor às salas de cinemas com um conjunto de assuntos sensíveis porém nunca se engajando seriamente em nenhum deles.

“Entretenimento é a palavra de ordem.”   –  Gordo

Benicio e o marido de Nancy Botwin de Weeds. Vilões mexicanos estereotipados…quem não gosta?

A história nos é narrada por O, diminutivo de Ophelia, papel de Blake Lively, a namoradinha sem sal de Hal Jordan em Lanterna Verde, aqui ostentando uma longa cabeleira loira e um visual de surfistinha judiada. Caracterizações falhas a parte, Blake manda bem na atuação, ganhou alguns pontinhos comigo. O tem dois namorados, Ben, um ecochato que desenvolveu um tipo de machonha super pura (Breaking Bad feelings?), interpretado pelo bom novato Aaron Johnson, e seu parceiro do crime Chon, defendido por Taylor Kitsch, um ex combatente da guerra do Afeganistão que funciona como a parte prática das narco-negociações da dupla. Os três protagonizam cenas de carinho compartilhado, que se não são exatamente ousadas, deslocam o filme da zona de conforto dos típicos filmes pra macho.

Salma, La Madrina, La Reina…

Ben e Chon desenvolveram um modelo de negócio baseado nas suas crenças pessoais, auto-sustentável e com muito do dinheiro ganho sendo gasto em obras sociais pelo mundo subdesenvolvido. Tudo ia bem até que o cartel mexicano encabeçado por Salma Hayek resolve ganhar terreno e força a barra para estabelecer uma parceria com a dupla. Eles fingem que aceitam, enquanto na verdade planejam uma fuga para a Indonésia, quando são surpreendidos com o rapto da princesa dourada, Blake. É aí que a trama efetivamente se desenvolve, simples assim, dupla de heróis (Mario e Luigi?) correndo para salvar a princesa loira das garras do mal.

Lado, personagem de Benício é escroto, sujo, podre e todo mundo gosta.

Apesar do trio de protagonistas ser bem carismático, quem rouba todas as cenas são os mexicanos, liderados por Lado, um Benicio del Toro surpreendentemente muito hilário no papel de um mercenário grotesco e cupincha da grande vilã do filme, Elena Sánchez, Salma Rayek no seu melhor papel ever!!!  Salma é uma rainha do narcotráfico poderosa, caricata e altamente dramática. É possível até traçar vários paralelos da personagem dela com a Tereza Christina da novela Fina Estampa, vivido por Christiane Torloni. É uma vilã Disney, afetada por todos os clichês de telenovela mexicana possíveis de serem condensados em uma personagem, com um amor incompreensível por sua filha patricinha que não quer saber dela. Se eu tivesse que justificar o filme em uma palavra, essa seria Salma!

Salma, La Madrina, La Reina… (2)

Mesmo em suas películas mais insípidas como Alexandre, Oliver Stone sempre consegue prover uma série de bons e inspirados momentos e o mesmo acontece com esse filme, um misto de 3 Formas de amar, Rambo e Weeds, no melhor que cada um tem a oferecer.

Saí leve, empolgado e inspirado da sala de cinema. Quantos filmes nos últimos anos conseguiram fazer isso comigo? Por isso, quatro cuias pra eles, “os guri” merecem.

Abraço do Gordito!