As Aventuras de Pi – Review

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Cocô na Cuia começa aqui a sua cobertura especial para o Oscar 2013.

Daqui até o dia 24, publicaremos reviews de todos os filmes indicados nas principais categorias, reportagens especiais e artes exclusivas produzidas pelo Gordo aqui…

…ou muito provavelmente não passaremos desse artigo, afinal de contas esse é o Cocô na Cuia, e cagar pela metade é o que fazemos de melhor, portanto fique agora com o review emocionado de  “As aventuras de Pi”  e “dá um chego” aí amanhã para ler nossas impressões sobre “Django Livre“.

As aventuras de Pi

“Eu acredito que no final das contas, a vida toda acaba sendo um eterno ato de desapego, mas o que mais me dói é não ter um momento para me despedir”
Pi Patel Velhaco

A imagem de um polaco obeso, vermelho, careca e de barba mal feita, com a face inchada de choro e um bico de pato tremulante é muito para você encarar? Então você é um ser de muita sorte por não ter assistido ao filme “As Aventuras de Pi” ao lado desse Gordo que vos escreve aqui.

Sim, chorei “merrmo”, em vários momento … de soluçar.

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Piscinão curtindo a marola com seu gatinho.

Baseado no livro “Life of Pi” do canadense Yann Martel, “As Aventuras de Pi”, o novo filme de Ang Lee é um tratado racional, porém emocional, de fé e religiosidade, com elementos cinematográficos fantástico-realistas  que remetem desde o “2001…” de Kubrick ao “Avatar” de Cameron. Junte a isso um protagonista lançado à solidão em alto-mar após o desastre que afunda o seu navio e que além de enfrentar a ameaça dos mares ora turbulentos ora calmos do Pacífico, dentro de um bote, por 227 dias, ainda é obrigado a dividir espaço com um tigre adulto e faminto em uma aventura longa e solitária rumo à morte.

Ang Lee, o diretor norte-americano de origem taiwanesa, que já nos entregou obras tão díspares quanto relevantes como “O Tigre e o Dragão” e “O Segredo de Brokeback Mountain”  ultrapassou o auge de seu estilo e nos traz a melhor direção de arte de uma película em décadas, sem medo de mergulhar no CGI com o único intuito de contar uma pequena história épica, que se por um lado cambaleia em um ou
outro diálogo raso, por outro nos entrega momentos de silêncio e contemplação profundos o suficiente para nos tocar a alma.

Detalhe, é um ateu profundamente cético aqui, quem assistiu ao filme e agora está escrevendo sobre alma.

Tio Ang foi muito feliz em colocar Pi como um cosmonauta flutuando em um mar por vezes tão calmo que espelha o céu, formando algo como a visão do vácuo do universo e trazendo à luz uma sucessão de cenas
puramente emocionais, quase oníricas. São momentos pictóricos marcantes e indissolúveis, curiosamente construídos sobre muita pesquisa e referencias reais.

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Piscinão numa nice, só pirando o cabeção nas luzes planctonicas.

Sim, o diretor e sua equipe foram longe na pesquisa de produção, chegando a organizar expedições marítimas, onde puderam estudar e observar os efeitos do plancto bioluminescente, baleias quebrando ondas,  peixes passando por uma espécie de pororoca em alto-mar e puderam trazer à vida o relato dos muitos navegantes que juram de pés juntos que em certas regiões do mundo o mar pode ficar tão calmo como mostrado no filme, onde a água parece um espelho infinito.

Agora, é impossível falar da parte técnica do filme sem comentar a perfeição alcançada na criacão de Richard Parker, o tigre que fora batizado por engano com o nome do seu criador. É definitivamente o máximo que a computação gráfica conseguiu alcançar em reprodução animal. Fruto da mente genial do supervisor de efeitos especiais Bill Estenhofer, o mesmo que deu vida ao Leão-meio-fake-porém-bem-movimentado de “…Nárnia“. Aqui eles foram a fundo e trouxeram tigres que puderam usar como referência para a construção dos animais assim como para os quatorze por cento das cenas em que tigres reais foram utilizados. É impressionante notar a alteração de massa corpórea do animal ao longo do filme, acompanhando a do próprio Pi, que emagreceu na vida real para justificar os dias de fome ao mar, o mesmo foi feito com o contruto do tigre, e o resultado é “felinomenal“.

Tigre
…. miaaaau!

Tá, mas pro Gordo ter ficado tão “empolgadinho” não é possível que o filme seja só imagem. E não é. A história é ótima, um misto de “Forrest Gump” com “Náufrago“, por sorte sem o Tom Hanks, acessível e se não é um arroubo de originalidade ao menos é muito bem construída, equilibrada e com questionamentos interessantes que te permitem refletir enquanto desfruta de uma seqüência de alucinação aqui e ali. A carga dramática do roteiro é boa o suficiente para que seja potencializada pela interpretação impressionante de Suraj Sharma no papel do protagonista Piscine Patel.

Ang Lee é o cara!

A trajetória de Ang é muito heterogênea, o diretor sempre fez questão que seu próximo filme fosse sempre em busca de uma nova temática e linguagem e é impressionante como ele conseguiu construir um estilo forte e identificável sem se apoiar na repetição de seus próprios clichês, o que poderia transformá-lo em uma paródia de si mesmo, armadilha da qual o Tarantino de Django Livre infelizmente não conseguiu escapar, falaremos disso na seqüência.

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O tanque onde foram gravadas a maioria das cenas aquáticas de Pi.

Há quem divida a sua carreira em duas vertentes, os filmes espetáculo, focados na poesia da imagem em movimento, “O Tigre e o Dragão“, “Hulk” e os filmes focados na história, geralmente calcados em livros como “Razão e Sensibilidade” ou em roteiros ousados como o de “Brokeback Mountain” ou ainda em contos pessoais como o hilário “Aconteceu em Woodstock” e seu primeiro filme “A arte de viver“.

Pi é sem sombra de dúvidas sua obra-prima até o momento, utilizando uma linguagem simples e uma temática universal com um primor técnico e contemporâneo, levando biscoito fino à massas sem medo de ser simples.

Indo muito além das mensagens pueris de auto afirmação e co-existência, “Pi” é acima de tudo um excelente filme que nos entrega muito mais do que paisagens exóticas e mensagens de paz e amor, mas
uma experiência sensorial completa envolta em uma trama cem por cento emoção.

Filme do ano sem sombra de dúvidas, que dessa vez Ang Lee seja merecidamente laureado pela academia, potencial há, candidatos à altura, poucos.

Abraços lacrimejados do Gordo.

Notas-45

 

Indicacoes

 Referências:

Revista “Sight and Sound” – Jan/2013
Wikipedia
IMDB

 

  • Rose

    Ainda Não assisti ao filme, mas da forma empolgante que vc fez seu texto, vou ter que assistir logo. Depois discutiremos

  • Fatso

    Não achei essa Coca-Cola toda, mas gostei da review. Deu vontade de assistir de novo e rever os meus conceitos com o filme… E cadê e review de Django!?