20th Century Boys Vol 1 – Review

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Críticos e resenhistas de plantão, como esse que vos escreve, ao se deparar com uma obra-de-cultura que os agrade têm uma mania besta e um vício malandro de compará-la com outros produtos de mídias consagrados do passado. É um truque barato, mas que funciona, facilita a escrita da resenha e ajuda a vender a ideia para o leitor preguiçoso que desistiu de pensar por si mesmo na quinta-série \o.

Discussões de estilo à parte, foi numa dessas armadilhas que esse Gordo aqui encasquetou em ler o mangá 20th Century Boys, de Naoki Urasawa. Vários sites e blogs da internet insistiam em classificá-lo como o “Watchmen japonês” e convenhamos, se você quer convencer um nerd a comprar um gibi, tem maneira mais eficaz do que compará-lo ao maior quadrinho de super-heróis de todos os tempos?

Enfim, tudo muito lindo, fui eu pra Amazônia ponto com e encomendei de uma vez só os seis primeiros encadernados do mangá, em inglês, uma vez que não estava com vontade de comprar mais um mangá impresso em papel semitransparente de limpar o ânus. Três semanas se passaram entre o pedido e a entrega e na minha cabeça só passavam as palavras “Watchmen japonês, Watchmen japonês...”, uma angústia potencializada pela ânsia de encontrar um bom quadrinho moderno numa época marcada pelo esgotamento de ideias.

Kenji

Escrevo esse review alguns minutos após finalizar o primeiro volume, e devo dizer que o primeiro encadernado me remete muito mais a um “Conta Comigo“, saudoso filme da sessão da tarde com River Phoenix do que para o tal do “Watchmen japonês“. Mas calma lá Gordão, essa é só a primeira etapa de uma saga que ainda possui outros 21 + 2 encadernados perfazendo um total de 249 capítulos e se ainda não alcançou o status de uma mega-saga apesar dos plots delineados aqui abrirem espaço para isso… OK!!! Realmente há várias linhas narrativas paralelas em períodos de tempos distintos, um grupo de heróis falhos destinados a salvar o mundo de um futuro apocalíptico, temos uma lula gigante que… espera, não, não temos…ainda bem… enfim, pode ser que existam algumas leves semelhanças entre as duas obras, mas fato é que Naoki Urasawa não é um Alan Moore, sua escrita é pobre, mas a história funciona e o primeiro encadernado te prende fortemente e te estimula a seguir em frente. Se a viagem toda valerá a pena? Te conto lá na frente quando terminar o volume 24.

Do que se trata?

Kenji, o protagonista, é um aspirante a músico fracassado que herda uma loja de bebidas de seu pai, transforma num mercadinho de rede, cria o filho abandonado por sua irmã e simultaneamente passa a ser atormentado por memórias de seu passado que vêm à tona no mesmo momento em que um de seus colegas de infância misteriosamente comete suicídio.

Relações entre essa morte misteriosa e um novo culto extremista emergente começam a se delinear à medida que outros assassinatos e desaparecimentos vão surgindo. Determinado a ir fundo na história, Kenji contata seus amigos de infância e tenta convencê-los a acompanhá-lo na busca da verdade por trás dessa conspiração.

Esse grupo pode estar ou não destinado a salvar o mundo de um futuro apocalíptico, cuja desgraça pode também residir na mão de um deles, que o que tudo indica pode ser o líder da seita que faz uso de um símbolo criado na infância pelos protagonistas e o perverte a um estandarte do fim do mundo que há de vir.

A narrativa é entrecortada em diferentes momentos históricos, o que ajuda a enfatizar o sentimento de “watchmencidade“. Parte dela se passa em 1969, o que dá força ao charmoso background de rock’n roll que permeia a história e onde acompanhamos os amigos e o seu “clube do Bolinha” particular, no qual se exilavam para ouvir rádio, ler mangás e descarregar a tensão com imagens eróticas. Esse é de longe o ponto forte do mangá nessa primeira etapa e por sorte a maior parte das cenas se passam nesse período. Em outra linha narrativa, 1997, acompanhamos os fatos do “presente” e ainda flashes de um futuro pré-virada do milênio onde o mundo fora aparentemente salvo por um grupo de heróis misteriosos. Há ainda um período indefinido onde vemos flashes de uma personagem feminina misteriosa e suas visões de robôs alienígenas gigantes, ou algo semelhante.

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E a arte, e o texto?

Calma suas piranhas, vamos por partes, ou melhor, voltemos um pouco e olhemos para “Monster“, a primeira obra de Urasawa publicada no Brasil, pela Panini. Nessa obra, o ator pecava muito ao se apoiar em argumentos clichês e um roteiro esquemático para contar a história de um médico envolto numa trama de mistério e suspense dentro de um hospital. O excesso de maneirismos de mangás comerciais e a superficialidade dos diálogos e do tratamento dos personagens me incomodava profundamente a ponto de me fazer abandonar a leitura logo no segundo volume.

Em 20thCB,essa impressão voltou em vários momentos do primeiro capítulo, de cara já pensei “Iiih, fiz merda, comprei tudo numa sentada e não vou ter saco para passar do primeiro paperback”. Ledo engano! Apesar de o autor ainda possuir muitos de seus vícios de linguagem e imagem, mesmo a arte do mangá sendo padronizada, personagens esboçados e pouco característicos, de parca diferenciação entre um e outro, razão da qual o guia de personagens do início do volume foi crucial à leitura. Mesmo com os cenários detalhados, provavelmente por uma trupe de ilustradores figurantes finalizando imagens genéricas providas por um Google Sketch-up, mesmo com as piadinhas prontas e expressões altamente exploradas em qualquer mangá de banca que vc leia, mesmo com tantos problemas, a história funciona e te envolve, os personagens são facilmente relacionáveis, humanos e adoráveis mesmo nos seus momentos mais escrotos e há um potencial narrativo muito grande que me faz, veja só, contar as horas para continuar a leitura com o segundo volume.

A alternância e a dosagem eficiente de momentos de comédia rasgada, emotivos e cenas explicitamente chocantes é outro ponte forte dessa primeira fase e torço para que Naoki mantenha o ritmo na sequência.

Obviamente eu pretendo voltar a escrever sobre esse mangá no futuro e espero sinceramente poder voltar e elogiar pra caralho o desenvolvimento da história. Em resumo, se estiver procurando uma leitura fácil e agradável, 20thCB é o canal, compre, baixe, xeroque, sei lá, mas leia e divirta-se, selo de qualidade do Gordo, carimbado na sua bunda.

Um abraço do Gordo, o original, não aceite cópias.

Simbolo-OlhoeMão

PS. O encadernado norte-americano está uma tetéia. Vale a encomenda. O papel é grosso, cheiroso e você não enxerga o desenho do verso. No entanto é sempre interessante estimular o nosso parco mercado editorial (mesmo que seja de quadrinhos enlatados), se for esse o caso compra o da Panini mesmo.