BETTER CALL SAUL – Recap – Primeiras impressões!

muitos SPOILERS à frente, CUIDADO!!!

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Recaps” são um tipo de artigo muito comum em sites de entretenimento norte-americanos, onde os redatores concatenam suas impressões sobre episódios de uma determinada série enquanto assistem aos mesmos. Resolvemos testar o formato com a estréia de um dos programas mais aguardados do ano, Better Call Saul.

Breaking Bad, criada pelo gênio de Vince Gilligan chegou ao fim no começo de 2014 e deixou um vazio irreparável no coração dos fãs de séries de TV e seguidores de boa dramaturgia, portanto nada melhor do que o próprio Gilligan para ajudar a tentar bater a sua obra prima, com uma história derivada dela mesma.

Saul Goodman, batizado JamesJimmyM. McGill, interpretado por Bob Odendirk, apareceu pela primeira vez no episódio homônimo à sua nova série, no oitavo capítulo da segunda temporada de Breaking Bad, quando Walt procurava por alguém que pudesse tirar Badger da cadeia, uma vez que ele havia sido pego pela polícia tentando vender a meta-anfetamina azul produzida pelo Sr. White. A partir daí, Saul virou um personagem recorrente e dos mais queridos pelos fãs, muitas vezes alívio cômico da série até a sua última temporada.

Eu nunca fui um desses fãs, mas o produtor Peter Gould encorajado pelo próprio Gilligan acreditou que Saul poderia sustentar uma série própria, possivelmente de comédia, com meia hora de duração por episódio. As coisas evoluíram e agora a primeira temporada de Better Call Saul terá 10 episódios de uma hora e equilibrará oitenta e cinco por cento de drama com 15 por cento de comédia, de acordo com seu ator principal. A estréia da série nos EUA ocorreu ontem, Domingo, 8 de Fevereiro de 2015 com seu primeiro episódio veiculado pela AMC, a mesma de Breaking Bad, mas hoje pela manhã, dia 9, o mesmo episódio já encontrava-se disponível no Netflix do mundo todo, numa iniciativa inédita de parceria entre uma tv fechada norte-americana e o nosso canal de streaming favorito.

Mas vamos às vias de fato:

A trama começa da melhor maneira possível, com um clima de estranhamento total, um Saul irreconhecível, tomadas em preto e branco, Address Unknow, um clássico dos The Ink Spots tocando ao fundo durante toda a primeira cena, rolinhos de canela sendo preparados e os cabelos ralos de Saul Goodman, aqui apenas o gerente Gene, ou Jimmy McGill, focalizados em primeiro plano enquanto o mesmo prepara uma fornada de bolinhos de chuva em uma loja da franquia Cinnabon. Jimmy parece inseguro, aflito, desconfiado de todos ao redor, enquanto tenta transparecer normalidade e tranquilidade. Não dá para saber ao certo de estamos vislumbrando a derrocada de Saul após os eventos de Breaking Bad ou se isso é parte de seu passado. A cinematografia ousada transparece de cara, especialmente quando passamos ao interior da casa de Saul e o observamos assistindo TV e se acabando na cachaça. Os ângulos ousados estão lá e isso é muito bom, a direção chega a bloquear quase dois terços da imagem em alguns momentos com um primeiro plano totalmente obscuro, os caras não tem medo de experimentar logo no início.

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Jimmy vagueia pela casa, garante que não está sendo observado, vai até um compartimento secreto em seu apartamento, ao melhor estilo Sr. White, e tira de dentro de uma caixa uma espantosa… fita-cassete. Ó raios, estamos no passado então? A princípio sim, até um video-cassete ele tem para rodá-la. Jimmy se afunda em sua cadeira e começa a assistir suas antigas propagandas televisivas, ou melhor, as propagandas de Saul Goodman, as mesmas que atraíram Heisenberg para a sua vida. Certo, estamos no futuro então? Ou presente? Não sei, pois sou cortado por uma abertura bizarra que simula uma imagem distorcida da estátua da liberdade e o logotipo da série e o nome de seus criadores brotam no estilo dos antigos video-tapes dos anos 80.

Um tribunal? Ótimo, parece que finalmente veremos Saul em ação numa corte, mas não ainda. A direção desse episódio realmente não tem pressa, observamos os réus, o juri, os detalhes da sala e o juiz que impaciente pela espera por Jimmy, ordena ao guarda da sessão que o busque no banheiro. É aí que encontramos o protagonista ensaiando seus próprios trejeitos e tiques, tudo em nome da auto-imagem que ele tenta construir milimetricamente, mas que ele ainda não domina com naturalidade. É uma espécie de Saul Begins!

Passamos então ao julgamento em si. Jimmy invade a corte triunfantemente, na opinião dele, claro, e inicia o seu discurso de defesa a favor de 3 jovens de 19 anos que fizeram alguma cagada master. O discurso é constante e sem interrupções, algo que parece muito estranho para quem está acostumado a series de tribunal como The Good Wife e Suits, por exemplo, onde os advogados se sabotam com objeções a cada frase formulada. Aqui não, Saul discorre daquela maneira alienada, afirmativa e malandra, mas que não convence ninguém. Seu oponente aguarda até que ele sente, levanta-se vagarosamente, puxa o carrinho com a televisão de tubo e um video-cassete de (novo?), ajeita sem pressa uma fita dentro dele e a roda. O timing da cena é magnífico, não há trilha incidental e a expectativa provoca risos expontâneos e a certeza de que uma merda do tamanho do mundo será exibida ali, o que acontece de fato, os garotos “só” invadiram um necrotério, serraram a cabeça de um defunto e simularam pornografia com o decepado em frente à câmera. É assim que Saul perde seu primeiro caso em frente aos seus telespectadores.

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Na saída do tribunal finalmente somos melhor situados no período de sua vida. Ele ainda não é um grande advogado, depende de casos mal remunerados para viver, os quais ainda leva calotes, possui uma Suzuki Esteem muito podre e remendada, afinal, que nome de carro seria mais apropriado para o personagem que “estima”Jimmy esconde sua pobreza como pode, simulando (mal) a voz de uma secretária inglesa quando contatado por um possível cliente, garantindo que seus encontros sejam sempre em lugares públicos. Chegando a um desses locais combinados, tenta passar um “migué” no cobrador do estacionamento, mas a falta de um ticket faz com que o velho funcionário não permita sua entrada. Eis que nos deparamos com a segunda face familiar de Breaking Bad, o bom e velho Mike Ehrmantraut, o capanga favorito de Gus e dos fãs! Jonathan Banks é tão bom em sua representação, que por um minuto eu acreditei que ele seria capaz de sustentar a sua própria série… sobre um funcionário de estacionamento.

Estamos agora em um restaurante, um dinner muito parecido com aquele da abertura de Pulp Fiction. Saul tenta a todo custo, manter sua tranquilidade perante o casal de futuros clientes, um tesoureiro, Craig Kettleman, acusado de desviar 1.6 milhões de dólares do governo. Quando estão prestes a assinar o contrato, Saul, em uma interpretação hilária deixa escapar sua insegurança o que faz com que a esposa, Betsy, impeça o marido de concretizar o negócio.

Ainda na fissura de fechar o contrato milionário com o casal, Jimmy vagueia por um subúrbio muito familiar, bem parecido com a casa de Walter White, quando um skatista é atropelado por ele. O que mais podia dar errado? Claro, seu irmão gêmeo aparece do nada e ameaça chamar a polícia, o que revela que os dois são nada mais que dois trambiqueiros em busca de alguns marreis, mas Saul refuta e dá uma lição de malandragem aos dois.

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Não restando mais nada para o dia, Saul dirige até um salão de beleza oriental, quer dizer, o seu escritório de advocacia, na realidade uma salinha nos fundos do salão, com toda a miserabilidade que um personagem fodido merece ter. Sem mensagens em sua secretária eletrônica, mas com uma correspondência a ser aberta, Jimmy recebe um cheque nominal generoso de 26 mil dólares de alguém que ainda não conhecemos, mas inexplicavelmente o rasga sem pensar duas vezes, como se não quisesse ficar devendo nada a ninguém. A quem? Descobrimos na seqüência seguinte quando somos apresentados indiretamente ao último fator a equação perfeita que a série tenta construir nesse episódio.

Até aqui fomos re-apresentados à Albuquerque de Breaking Bad, através das localidades de classe média e pobre por onde Jimmy perambula. Fomos introduzidos a uma breve sabor do futuro do protagonista, assim como voltamos às suas origens e passamos a acompanhar a sua rotina. Já temos o cenário e o ator, falta a motivação e ela atende pelo nome de Chuck, o irmão mais velho de Jimmy, um advogado outrora de sucesso que ajudou a construir a imponente empresa de advocacia Hamlin Hamlin McGill, mas que após um ainda não revelado incidente se transformou em um ermitão recluso com fobia de eletromagnetismo, mais um personagem peculiar bizarro e curiosamente crível, da mente de Vince Giligan. Saul atua como um protetor implacável do irmão, ou pode estar apenas tentando garantir o ganho máximo para si mesmo, mas fato é que todos os agrados propostos por Howard Hamlin, o diretor da firma de seu irmão, são recusados de forma teatral e com referências cinematográficas obscuras, que somente o próprio Jimmy e Vince Gilligan parecem sacar – Network? Filme de 1976, sério Vince?

Jimmy corre desolado para casa, após descarregar seu ódio propriamente em uma lixeira seguida de uma interação não clara com uma mulher de seu passado. Ao chegar ao imóvel obscuro, deixa todos os seus acessórios metálicos e eletrônicos na caixa dos correios e “aterra-se”, demanda de seu irmão Chuck. Sem luz elétrica, acende um lampião e vai à sala iniciar uma conversa longa e fascinanate, que consegue exporar a fraqueza do irmão de maneira não convencional, assim como explicita  a impotência de Jimmy frente ao status quo. Chuck é contra todos os esforços de Jimmy para tentar reaver o que é seu, ele acredita piamente que irá voltar à lucidez e que um dia retornará à empresa que construiu, para o desespero de Saul que tem consciência do quão pirado ele é.

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O último prego no caixão é afundado quando Chuck demanda que seu irmão arranje um novo nome, para que Jimmy M. McGill não se confunda ou viva à sombra da H H McGill. Surgem aí os primeiros indícios do futuro nome de nosso protagonista.

Revoltado com a vida e pronto pra dar a volta por cima, Saul vai atrás dos irmãos gêmeos que tentaram lhe dar o golpe e propõe uma parceria com os mesmos. Os ruivos hipsters simulariam um novo atropelamento, mas dessa vez a vítima no volante seria Betsy, a esposa de seu cliente em potencial a qual ele vira ser cortejada por Howard mais cedo. Assim que o impacto acontecesse, Saul seria contatado para salvá-la do incidente e da extorsão, talvez assim ganhando sua confiança e o contrato.

Seria a dupla o equivalente ao Jesse Pinkman da série? A conferir.

Tudo corre bem até o impacto, só não contavam que o carro “cor de cocô” fugiria sem prestar socorro. Os gêmeos entram numa perseguição de skate pelas ruas de Albuquerque até que alcançam o  carro e sua motorista carniceira, só que aquela não era Betsy, e sim uma senhorinha latina que não falava uma palavra de inglês. Sem saber da confusão os garotos a fazem entrar em casa na tentativa de conseguir algum dinheiro, enquanto Saul corre para tentar alcançá-los.

Chegando lá, ele tenta chamar a atenção dos moradores, sem sucesso. Resolve então fingir ser um agente da lei, berrando para que abram a porta. É claro que isso dá merda, uma mão segurando uma arma aparece na porta e puxa Saul para dentro. A figura então tira a cabeça para fora para ver se a barra está limpa, quando vemos o terceiro personagem de Breaking Bad da noite, o traficante Tuco Salamanca!

Será que o Titio Hector vem aí?

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Better Call Saul começou como todas as séries, e principalmente spin offs deveriam começar. Chutando a porta sem dó, ainda que dosando a apresentação do universo aos novos telespectadores enquanto explora de forma sutil e satisfatória os elementos da série mãe que a originou, fazendo uso do histórico de um personagem já conhecido e cultuado, mas construindo toda uma nova estrutura de roteiro ao seu redor que permite uma miríade infindável de novas tramas, criando uma nova mitologia e quem sabe  formando um produto de mídia tão bom quando Breaking Bad.

Não será fácil superar suas origens, mas a julgar pela execução quase perfeita dessa abertura, o show tem tudo para ser mis um hit da ACM e do Netflix.

Garantiu meu lugar na frente da TV pelas próximas semanas, só torço para que os criadores consigam preencher bem a lacuna entre o que fomos apresentados aqui e tudo que já sabemos sobre o futuro. Os showrunners da série já garantiram que haverá muitas idas e vindas ao longo dos episódios e que eles não serão todos apresentados de forma linear, o que pode ajudar a prolongar esse interesse, além de abrir a possibilidade do retorno de Walter e Jesse, mesmo que isso não aconteça já nessa primeira temporada. Mas bora lá, eu não botava muita fé, porém agora eu acredito em Saul Goodman!

PS. Netflix, obrigado por não me isolar por dias em minha cama e por ousar lançar esse seriado em episódios. Minha vida social agradece.