Star Wars: O Despertar da Força – Review

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Uma verdadeira seqüência da novela espacial nos cinemas, uma revisita aos personagens clássicos trinta anos depois, as conseqüências do efeito Disney sobre a compra  da franquia, a volta dos efeitos especiais práticos, um novo capítulo no melodrama da família Skywalker são todas razões fortes e válidas que ajudaram a construir e manter o nível de expectativa sobre a estréia mundial do Episódio VII de Star Wars nesse histórico 18 de Dezembro de 2015.

O filme já coleciona números impressionantes, cem milhões de ingressos comercializados na pré-venda, a maior da história, produzido com um orçamento de aproximadamente duzentos milhões de dólares mais custos de marketing regidos por J J Abrams, o novo maestro da saga, só ajudaram a amplificar ainda mais a angústia dos fãs nessa espera de quase dois anos desde que o filme fora anunciado na convenção da Disney naquele longíquo 29 de Abril de 2014 quando George Lucas oficializou a venda de sua maior criação para as mãos da dona do Mickey, e da Marvel, e da ABC…

Pois bem, grande parte dessa expectativa se converteu em satisfação com um filme em geral bem executado, com o nível correto de ação e efeitos especiais e um elenco irreparável atuando sobre um roteiro repleto tanto de personagens muito bem caracterizados quanto de soluções clichês de uma trama construída sobre uma estrutura batida e já explorada pela própria saga. É capaz, no entanto de agradar tanto aos fervorosos fãs da saga quanto a uma platéia comum e não familiarizada com esse universo, o que conta como algo positivo, já que tem potencial de formar uma nova legião de fãs que estenderá ainda mais a sua longevidade comercial.

Rey libertando BB8, o andróide da Resistência que possui partes do mapa que levará ao desaparecido Luke Skywalker...
Rey libertando BB8, o andróide da Resistência que possui partes do mapa que levará ao desaparecido Luke Skywalker…

J J trabalhou ao lado de Lawrence Kasdan, o roteirista de O Império Contra-Ataca, melhor filme da saga até hoje, sobre o trabalho original de Michael Arndt, de Toy Story 3, e o resultado final não poderia ser mais tradicional e conservador do que o apresentado. De fato, a impressão que se tem é que ambos pegaram o esqueleto do Episódio IV, Uma Nova Esperança e apenas o re-escreveram e ampliaram, trocando o nome e o sexo de alguns personagens e instituições mas mantendo o mesmo cerne da jornada do herói, no caso, da heroína, não se fazendo de rogado nem mesmo na construção de uma nova Estrela da Morte, dessa vez dez vezes maior, porém infinitamente mais frágil, tamanha a facilidade com que foi abatida. Não, essa conclusão não é nem um pouco original e já se tornou senso comum pela rede, mas se eles podem lotar o filme com clichês por que minha crítica também não pode ter umazinha?

O trabalho de construção dos personagens no entanto é admirável e se você procura alguma ousadia nesse filme é aqui que ela será encontrada, nos papéis de Daisy Ridley, John Boyega e Oscar Isaac. Ridley e Boyega formam o casal principal de protagonistas e roubam a cena, o que é um alívio uma vez que a segunda e terceira partes da trilogia dependerão quase que exclusivamente deles. Nem mesmo a aparição de Harrison Ford, excelente nessa revisita final a Han Solo, de uma apagada Carrie Fisher e de um sub-aproveitado Mark Hammil na pele de Han, Leia e Luke conseguiram fazer frente para a dupla. São de longe a parte mais brilhante do longa.

Ridley é a novata da turma, grande e acertada aposta de J J Abrams para a herdeira da Força. Tendo atuado apenas em alguns seriados ingleses de pouca relevância, curta metragens e clipes, sua interpretação da rainha da sucata das galáxias é forte e extremamente cativante, na terceira cena eu já estava apaixonado por ela, além do que, convenhamos, ter uma protagonista feminina, independente e melhor “motorista” das galáxias, empunhando um sabre de luz, ao lado de outro protagonista afro-descendente e um latino acaba dando uma relevância a esse filme que pode levá-lo além do fator de pura diversão.

Finn, o Storm Trooper desertor de John Boyega
Finn, o Stormtrooper desertor de John Boyega

O que nos leva ao não menos ótimo John Bodega, quer dizer, Boyega (ié ié), outro grande achado. Não exatamente um novato, o cara foi o astro de Ataque ao Prédio, excelente filme independente de 2011 e é responsável por um dos momentos mais marcantes do filme, logo no início, quando exalta a humanização dos Stormtroopers dentro do contexto de guerra dos filmes. Boyega é FN-2187, um soldado da Primeira Ordem, o Império da vez, que entra em pânico em meio aos horrores da primeira batalha que participa em uma guerra “de verdade”. É a partir dessa epifania que Finn resolve mudar de vida e ajuda o Republicano Poe Dameron, papel de Isaac, a fugir das garras de Kylo Ren, o bad-boy emo, neto de Darth Vader, filho de Han e Leia. Sim, as coincidências familiares e os “daddy-issues” continuam dando o tom da trama.

[pullquote align=”right” cite=”” link=”” color=”” class=”” size=””]Curiosidade: 2187 é o número da cela na qual a Princesa Leia encontrava-se presa no Episódio IV da saga. Coincidência?[/pullquote]

Já o Kylo, nosso principal vilão em início de carreira é muito bem interpretado pelo ótimo Adam Driver, do seriado Girls, mas vem dividindo opiniões. Dentro do contexto da trama esse personagem é fantástico, um cara herdeiro de um enorme poder, mas extremamente inseguro, que abandonou seus pais para tentar virar um maldito ainda maior que seu Vovô Vader é um prato cheio para boas tramas e conflitos, que o roteiro desse episódio ainda não deu conta de abordar adequadamente. Há no entando uma série de bons momentos do personagem e a figura de brucutu esguio traz um certo frescor ao universo do filme ao mesmo tempo que causa esse estranhamento em pare do público.

Uma gama de novos personagens é planetas é apresentada nesse recomeço, mas na disputa com os demais acontecimentos acabaram sendo atorados pelo script e por conta disso uma boa parte dos atores que prometiam render, tiveram seu tempo de tela muito mais curto do que gostaríamos. Minha esperança é que os produtores tenham proposto introduzir esses personagens agora, para que fossem então devidamente desenvolvidos nos filmes subsequentes, afinal tivemos muito pouco do Poe Dameron, o exímio piloto da Resistência, que em breve chega às telonas como o vilão Apocalypse em X-Men e que mostrou uma boa química com o Finn nas suas primeiras cenas.  Já a personagem de Lupita Nyong’o, ganhadora do Oscar de melhor atriz por Doze Anos de Escravidão tem importância central no desenvolvimento da personagem principal, mas suas aparições são breve e muito aquém do potencial da mesma, criada em CGI mas com um visual marcante e muito bem executado, diferente do nosso finado, bate na madeira, Jar Jar Binks.

Tomada Incrível da Batalha de Jakku
Tomada Incrível da Batalha de Jakku, planeta onde encontramos Rey e a Millenium Falcon abandonada.

Há ainda um outro personagem criado em computação gráfica, Snoke, que aqui faz as vezes do Imperador Palpatine da trilogia original, o mestre maligno que puxa as cordinhas de suas marionetes,  interpretado por Andy Serkis, sim, o mesmo que deu vida ao Smeagol de O Senhor dos Aneis e ao César de Planeta dos Macacos, porém sua concepção visual é primitiva, possivelmente prejudicada pelo fato do personagem aparecer o tempo todo como uma projeção holográfica gigantesca, a validar nos próximos filmes.

Star Wars sempre contou com alguns dos personagens mais carismáticos do cinema, parte do fascínio duradouro da série, alguns que poderiam parecer ridículos em qualquer outro contexto, mas que aqui funcionam muito bem. Sim Chewie, estou falando de você! Mesmo com sua fantasia barata e desengonçada o Wookiee continua sendo o melhor de todos. C3PO e R2D2 também retornam, com muito menos destaque do que mereciam, mas o novo andróide BB8 preenche o vácuo “like a boss”.

O Despertar da Força não traz nenhuma contribuição tecnológica relevante ou revolucionária para a indústria do cinema, J J se preocupou o tempo todo em referenciar o passado, não o da trilogia que contou a derrocada de Anakin, mas o da saga clássica que realmente povoa e domina o coração dos fãs e conseguiu entregar um bom produto final, que enternece o coração de Gordos rancorosos como eu ao modernizar o melhor das tecnologias de efeitos especiais práticos do passado, mesclanado-os com discrição à computação gráfica. Sou um apaixonado e devoto de todos os aspectos de criação visual e renderização desse universo, tão vasto e ao mesmo tempo tão íntimo e do enorme trabalho de carpintaria das equipes criação no desenvolvimento das máquinas, naves e cenários que povoam o imaginário popular há mais de trinta anos e que souberam beber nas referências do passado, desde o filme Metropolis de Fritz Lang passando por 2001 de Kubrick e que serviram de referência para quase todos os filmes de ficção científica depois dele. Sou também obcecado pela trilhas sonoras inesquecíveis do gigante John Williams, que compôs para todos os filmes da saga e tudo isso está lá, em iMax, 3D e tudo a que temos direito, ao lado dos personagens clássicos que amamos e de uma nova geração que promete.

Em termos comerciais não há dúvidas que Star Wars já é um grande sucesso. Fica a esperança que os próximos diretores e roteiristas saibam dar continuidade a todos esses elementos introduzidos por Abrams e quem sabe trazer um pouco mais de maturidade e inteligência às novas histórias. Nunca fui um fã iludido a ponto de acreditar que a epopéia de Anakin, Obi Wan, Luke, Leia e Han fosse algo mais do que puro entretenimento e sou muito feliz por isso até hoje, obrigado, mas não sei se aguento uma quarta Estrela da Morte ou mais uma seqüência de T-Minus, contagem regressiva para a explosão de uma grande ameaça, na conclusão dos próximos filmes.

Que a Força esteja conosco.

PS: Capitã Phasma, o melhor visual do novo filme, encarnado pela ótima Gwendoline Christie de Game of Thrones só deve três micro-cenas relevantes durante toda a exibição. Vamos corrigir isso aí nos próximos filmes ô Dona Disney!