The Affair – CNC Review

Globo de Ouro Indicacoes

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Minha mãe tem uma mania de hiperdetalhar todas as histórias que ela me conta, enriquecendo os fatos com camadas de emoções que muitas vezes acabam alterando o real tom ou propósito dos acontecimentos por conta do seu julgamento interno, que submete-se à sua interpretação dos fatos, guiados pela vivências, impressões, suposições e emoções relacionadas aos protagonistas daquele conto.

Nas ocasiões em que meu pai presencia as mesmas situações que ela, o relato que escuto dele vem muitas vezes num tom mais ácido, impessoal e com detalhes que divergem da maneira que minha mãe me contou. Algumas vezes não tenho como fugir e sou obrigado a escutar ambas as histórias, o que acaba originando um conflito entre os dois para me convencer de que a visão do outro é uma falácia e é claro que eles me obrigam a tomar partido de um dos lados. Mas no fundo acabo formando uma terceira verdade dos fatos em minha mente que são ainda mais alterados pela maneira como eu enxergo os meus velhos. Sei que tenho que dar um desconto na emotividade aflorada pelo conto de minha mãe ao mesmo tempo que eu tento desvilanizar os protagonistas das histórias de meu pai e é essa versão reconstruída que eu levo em minha cabeça como a verdade dos fatos.

A formação da verdade e a composição da informação dentro da mente humana é uma matéria altamente complexa que eu jamais tentaria abordar aqui, mas é nesse conceito fantástico que The Affair baseia toda a sua estrutura.

Seriado dramático produzido e exibido pelo canal Showtime dos EUA, já na sua segunda temporada, The Affair foi criada por Hagai Levi, o cara que originou as infindáveis versões do seriado Em Terapia e Sarah Treem de House of Cards, que aqui nos envolvem em uma história que tinha tudo para soar batida, confesso que evitei dar uma chance à série até pouco tempo atrás exatamente por conta disso, mas em meio a uma dessas viagens intermináveis que a minha empresa me proporciona, após já ter explorado todo o catálogo de entretenimento da companhia aérea, que nem era tão vasto assim, acabei por dar uma oportunidade à trama. Melhor escolha!

Encabeçada por Dominic West, protagonista da clássica e emblemática série The Wire da HBO, aqui faz as vezes de um escritor de meia idade frustrado chamado Noah Solloway, que vive um casamento já há muito tempo desgastado com seu amor de adolescência, Helen, interpretada pela ótima Maura Tierney de ER e The Good Wife. Em meio à já tradicional viagem de férias de verão com seus 3 filhos, rumo à casa litorânea dos riquíssimos pais de Helen, nos Hamptons, claro, Noah conhece e se encanta com uma sexy e misteriosa garçonete, Alison Bailey, encarnada pela ganhadora do Globo de Ouro pela série, Ruth Wilson.

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Alison é uma mulher frágil, que passa por um período extremamente depressivo onde tenta re-encontrar o sentido de sua vida após a perda de seu único filho, o que desestruturou o seu casamento com o vaqueiro Cole Lockhart, papel do delicinha ótimo Joshua Jackson, nosso eterno Pacey, de Dawson’s Creek e o Peter Bishop da saudosa Fringe.

Todos os episódios da primeira temporada são divididos em duas partes, cada uma contando um determinado período da trama pelos pontos de vista de Noah e Alison. A segunda temporada fica ainda mais instigante, uma vez que entram também na jogada os pontos de vista dos traídos, Helen e Cole. Mas não se preocupe pernicioso leitor, você não será obrigado a assistir a mesma história contada de mandeira diferente em todo episódio. Apesar do conceito ser interessante, esse expediente já foi explorado puntualmente em outros seriados e filmes, sempre com resultados modorrentos. Em The Affair, apenas alguns momentos chaves da história, basicamente os instantes em que os dois protagonista compartilham o mesmo espaço, é que são representados de maneiras diferentes. O restante do tempo é utilizado para desenvolver o que os protagonistas estavam fazendo enquanto se encontravam longe de seus amantes.

São deliciosos os momentos em que Noah nos mostra Alison como uma mulher sedutora e perigosa enquanto ele se auto-representa como um cavalheiro gentil e corajoso. Em contra-partida, quando chega a hora de Alison contar a história ela se coloca como uma sofredora, vítima das circunstâncias enquanto Noah aparece como um homem safado, em alguns momentos frio e violento. É louvável também a maneira como o time de escritores e direção desenvolve a evolução das percepções de cada um a medida que a paixão de ambos vai ficando mais forte ou como eles são retratados de maneira mais sinistgra quando há um conflito ou cisma entre eles.

A escrotice natural de Noah, seja qual for o ponto de vista, em contra-partida, acaba potencializado muito o carisma do restante do elenco. Os momentos em que ele se sente humilhado por seu sogro, Bruce Butler, papel de John Doman, são prazerosos, uma vez que o padrasto de Helen alcançou o sucesso como escritor que Noah sempre almejou, porém com literatura de baixa qualidade, algo que o professor de Nova Iorque não admite, uma vez que seu primeiro livro fora um fiasco. A mãe de sua esposa é outro show a parte, papel da visualmente excêntrica Kathleen Chalfant, uma sogra que não se faz de rogada em esfregar todos os fracassos do genro na cara dele.

Há ainda um núcleo formado pela família de Cole, com mãe, irmãos, cavalos… mas não entrarei em detalhes. Joshua Jackson, em geral um ator mediano, aqui entrega uma de suas mais contidas e fofas fortes interpretações. Cole sofre e é atormentado pela perda de seu filho tanto quanto Alison, mas ao contrário dela, ele tenta encontrar uma maneira de reconstruir a sua relação ao lado da esposa ao mesmo tempo que ainda busca alternativas para não deixar o restante de sua família afundar em um mar de dívidas, o que os levaria a perder sua propriedade e seu rancho.

Esse jogo de possibilidades e reinterpretações é o forte da série e ao mesmo tempo é o que indicava vida curta à seqüência dessa trama, que ganha contornos policiais. Mas fato é que a entrada de mais pontos de vista garantiu um frescor e uma miríade de caminhos que não pensei ser possível e é isso que tem feito de The Affair uma das melhores surpesas televisivas nesses últimos dois anos, conseguindo se valer de plots previsíveis, mas que acabam se transformando em um produto final com narrativa ousada, personagens fortes e interpretações memoráveis.

Como vocês já sabem, a mania de hiperdetalhar as histórias eu herdei de minha mãe, mas em resumo, The Affair é do caralho! Pode acreditar no meu ponto de vista e se discordar me escracha aí nos comentários.

Abraço do Gordo!