Os Oito Odiados – Review

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O oitavo filme de Quentin Tarantino, ou nono, se considerarmos as duas partes de Kill Bill, é uma obra de um diretor já muito confortável com o seu estilo e sem medo de revisitar aquilo que já fez tentando extrair algo novo. Considerando que estamos aqui falando de um dos cineastas mais criativos e livres das últimas décadas, isso não significa algo negativo. Assim como no filme em que Uma Thurman interpretou A Noiva, Os Oito Odiados parte de um fiapo de trama, o que até certo ponto poderia ser o calcanhar de Aquiles da obra, mas que ganha corpo graças aos diálogos eternos e deliciosos do filme, às interpretações peculiares de grandes e as vezes esquecidos atores extraídas por um diretor que é apaixonado e que sonha em ser um deles.

A trama se passa alguns anos após a Guerra Civil norte-americana, período da escalada de conflitos raciais após a libertação dos escravos perpetrada por Abraham Lincoln, personagem histórico, aliás, que possui participação especial indireta e notável no decorrer do filme. A história gira em torno de sua única protagonista feminina, a “lagarta” sedutora Daisy Domergue, melhor papel de Jennifer Jason Leigh, uma assassina procurada que está sendo levada rumo ao enforcamento na cidade de Red Rock pelo caçador de recompensas, John “O Carrasco” Ruth, Kurt Russell, nosso eterno Snake Plissken em seu papel mais marcante desde Fuga de Nova Iorque. Eles acabam encontrando dois perdidos ao longo do caminho e devido à forte nevasca e uma série de artifícios de convencimento, Ruth acaba aceitando conduzir o Major Ianque, Marquis Warren, nosso Samuel L Jackson e o suposto novo Xerife de Red Rock, Chris Mannix, Walton Goggins na interpretação masculina mais marcante desse filme. O primeiro terço da jornada é quase todo focada nessa viagem e nas interações entre os personagens e as tentativas de extrair alguma informação verdadeira do passado de algum deles. É interessante notar nesse período, que mesmo os diálogos mais aparentemente dispersivos e irrelevantes do filme estão ali para construir tudo que será desenvolvido no segundo e terceiro atos do filme. É uma das marcas de Tarantino, aquilo que vc acha que poderia ser um papinho furado e uma boa desculpa para tirar atenção do filme para encher a cuia de chimarrão na verdade será parte essencial na construção do enredo.

Samuel L Jackson como o Major Marquis Warren
Samuel L Jackson como o Major Marquis Warren

A trupe é obrigada a parar no Armarinho da Minnie, uma estalagem com cama, café e guisado isolada no meio das montanhas nevadas do Wyoming. Chegando lá se deparam com um pequeno grupo de hóspedes muito peculiares: Oswaldo Mobray, papel histericamente hilário de um Tim Roth de Lie to Me atuando como um Christoph Waltz. John Gage, atuação apagada de Michael Madsen. General Sanford Smithers, um confederado aposentado e racista interpretado pela lenda Bruce Dern e Bob, o Mexicano, uma interpretação atipicamente caricata de Demián Bichir de Weeds, que está ali para cuidar do Armarinho enquanto Minnie e Sweet Dave, seu parceiro, estão supostamente viajando para o norte para visitar a família. A ação do restante do filme concentra-se toda na estalagem a partir daí e conta ainda com a participação especial de Channing Tatum em um papel de virada na história, que eu obviamente não detalharei mais uma vez que não gosto de ser um gordo spoilerento.

Como o próprio nome do filme indica, estamos falando aqui da reunião de oito dos personagens mais abjetos da filmografia de Tarantino. Não há heróis e vilões maniqueístas nesse filme. Como um faroeste menos fábula e mais realista onde você encontra pessoas que estão mais próximas ou distantes da Lei, mas nenhuma delas é desprovida de um caráter dúbio, mesmo a personagem mais podre nutre um amor puro e incondicional por seu irmão, enquanto o personagem mais correto não se faz de rogado na hora de expor sua repulsa aos negros ou calar uma mulher a base de cotoveladas. E isso acaba trazendo uma das galerias de personagens mais humanas nesse que talvez seja o filme mais íntimo (ou seria confinado?) do diretor.

Tarantino usa e abusa de todos os seus recursos de narrativa, estão lá os capítulos bem delineados com títulos sugestivos, a montagem atemporal, ainda que reservada a apenas uma parte do filme, o Samuel “Nick Fury” Jackson em mais um papel de destaque e um dos mais complexos com direito a discurso ápice, os diálogos longos e hipnotizantes onde o roteirista se transforma em um mágico truqueiro que te faz ficar olhando para o seu pezinho balançando enquanto a carta está saindo de sua manga. Infelizmente, como qualquer truque repetido, depois de um tempo observando você passa a deduzir o que pode vir dali e a previsibilidade periga tomar conta, mas Quentin sabe muito bem como sacudir das maneiras mais variadas e como de praxe fica quase impossível ao expectador de boa vontade desviar o olhar, mesmo imaginando onde aquilo pode dar.

Daisy Domergue, a lazarenta mais pilantra do Velho Oeste. Que show de atuação!

Jennifer Jason Leigh é o grande destaque do grupo de atores e entra para o panteão das personagens femininas memoráveis do cineasta, ela é o coração da trama e mesmo passando boa parte da história em silêncio consegue sempre roubar a atenção para si, seja em suas trolladas no seu carrasco John Ruth, seja vomitando o ódio de sua personagem em discursos histéricos ou mesmo em olhares lascívios com sua cara toda estourada o que leva a risos culposos da platéia.

A trilha original de Ennio Morricone , parceiro já recorrente e ídolo do diretor é novamente emblemática. Não fugindo do estilo já marcante e até datado de suas composições, aqui ela consegue transformar os momentos mais irrelevantes em uma narrativa épica através do uso de órgãos de igreja, coros e outros instrumentos peculiares utilizados pelo compositor. Pra quem não sabe, Ennio é compositor das trilhas clássicas de muitos dos faroestes produzidos na Itália nas décadas de sessenta e setenta com o diretor Sérgio Leone, os famosos Spaghetti Westerns tão adorados por Tarantino .

O curioso da estrutura dessa película é que não fosse a capacidade técnica e criativa dos envolvidos, poderíamos ter a sensação de estar assistindo a uma peça de teatro televisionada, só que muitíssimo bem filmada, tanto é que o próprio produtor do filme, Harvey Weinstein, admitiu recentemente que havia sugerido ao diretor que considerasse esse roteiro diretamento para os palcos, sugestão prontamente recusada uma vez que Tarantino queria a todo custo filmar com antigas películas de 70mm da Panavision, uma tecnologia morta há décadas e que trouxe aumentos significativos aos custos de produção e dificuldades técnicas tanto no processo de captação de imagens, quanto na exibição. Poucos cinemas do mundo ainda possuem máquinas capazes de exibir esse tipo de película robusta e Tarantino teve que promover turnês para que cinéfilos nos EUA conseguissem ter acesso a essa experiência rara. Fato é que sua decisão trouxe resultados efetivos inóquos, pois considerando que mais de noventa por cento do filme se passa no interior do armarinho da Minnie ou no interior de uma carruagem, sobram poucas cenas de impacto ou paisagens exuberantes que justificassem o uso do filme de maior resolução. Aqui no Brasil infelizmente não há mais salas que consigam exibir filmes dessas bitola, o que nos deixa sem o referencial real da obra como ela foi pensada. O que temos nos cinemas daqui são versões digitais com metade da resolução original, com um resultado final ainda muito bom, até percebe-se uma profunidade de câmera maior e uma maior vividez nos detalhes, mas, de novo, nada que realmente vá causar impacto em um filme desse perfil.

Tarantino dirigindo a trupe dentro do Armarinho da Minnie, onde quase toda a ação do filme se desenrola.
Tarantino dirigindo a trupe dentro do Armarinho da Minnie, onde quase toda a ação do filme se desenrola.

Os Oito Odiados não é o melhor filme de Quentin, mas tem algo de especial nele que não se encontra na fotografia, nem na direção, atuações e tampouco em seus aspectos técnicos. A genialidade aqui presente está na maneira como ela consegue sintetizar toda uma nação diversa e dividida por conflitos raciais em uma época comumente conhecida pelo domínio da ação truculenta sobre o diálogo, tudo isso representado em um filme que mais remete a um episódio detetivesco de Miss Marple, totalmente dominado por conversas longas e argumentativas filmado de uma maneira que induz o expectador a ficar atento a cada feição de cada personagem e a cada ação ao fundo de cada tomada numa tentativa de entender o cenario que se está armando e o que virá a seguir. É entretenimento puro construído com arquétipos histórico e estilo. É Tarantino.

Pra finalizar…

Sempre que o Velho Taranta lança um filme novo eu atualizo a minha lista do melhor pro pior. Olha onde Os Oito Odiados se encaixa:

1 – Pulp Fiction

2 – Jackie Brown

3 – Bastardos Inglórios

4 – Kill Bill Vol II

5 – Os Oito Odiados

6 – Kill Bill Vol I

7 – Cães de Aluguel

8 – À Prova de Morte

9 – Django Livre

Qualquer dia se me der na telha eu escreverei as justificativas do por que eu amar ou odiar cada um desses filmes. E você? Quais películas Tarantinescas gosta ou odeia mais?