Batman V Superman: A Origem da Justiça – Review

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Uma sociedade acostumada a absorver informações por grandes manchetes e focada em grandes eventos e momentos pode acabar deixando de curtir o que há de melhor nesse que talvez seja o filme mais antecipado e aguardado desse ano, Batman V Superman, A Origem Da Justiça, que chega aos cinemas de todo o Brasil hoje, um dia antes que na maior parte do mundo. BR HUE go!

O trailer lançado no mês de Fevereiro, ao mesmo tempo que ouriçou os ávidos fãs das franquias ao trazer um recheio desmedido de cenas impactantes, foi também vastamente criticado por aparentemente entregar a estrutura completa da história. E de fato o fez. São poucas as surpresas adicionais no argumento base do filme, mas os detalhes, ah, os detalhes… são nas pequenas lapidações de Terrio e Snyder que o filme brilha e ganha relevância.

O roteiro é de uma classe pouco vista até hoje em filmes de super-heróis e ao que tudo aponta o mérito é quase que inteiramente de Chris Terrio, que se esforça e consegue tornar mesmo os momentos mais potencialmente modorrentos do filme em uma cena ao menos interessante e com personalidade.

Já o arroubo visual do diretor serviu muito bem à escala épica da trama e as soluções visuais criativas como as vistas em Watchmen voltam a marcar presença aqui. Atente para a maneira como ele escolheu resumir a origem do Morcego logo no início do filme, de uma beleza plástica inegável e com uma edição competentíssima criativa e empenhada que se mantém durante todo o tempo de exibição.

Solene e elegante são adjetivos muito usados, de maneira jocosa em sua maioria, para caracterizar a cinematografia de Snyder, mas ouso dizer que dessa vez ele se superou positivamente. Soube guardar sua câmera lenta para os momentos realmente necessários, como os que pediam ao expectador alguma reflexão ou para permitir uma análise mais cuidadosa do visual dos personagens introduzidos. Foi o que de certa forma ajudou a tornar a entrada da Mulher Maravilha no coreto um momento emblemático e que será pra sempre lembrado. A fotografia acinzentada, no entanto, ainda está lá.

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Saí agradavelmente surpreso da sessão de pré-estréia do filme, não com aquele sentimento de ter assistido à película mais revolucionária do universo, mas por ter passado duas horas e meias de pura curtição sem cansaço e com oportunidades de proveito em quase todas as cenas.

Quatro histórias básicas do quadrinhos me vieram à mente durante o filme e que parecem ter sido a base de tudo, a mais óbvia, é claro, vem de Batman o Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, a segunda seria da trevosa fase de Dan Jurgens com o Superman nos anos noventa, famoso por produzir sagas de baixa qualidade que sacudiam o status-quo do personagem para fazê-lo voltar ao normal no ano seguinte. A terceira vem da série de histórias de Superman & Batman escritas por Jeph Loeb, hoje um dos cabeças da Marvel TV, particularmente o segundo arco da revista de 2005 que conta com a participação das Amazonas e do Quinto Mundo. Por fim, há alguns elementos de Torre de Babel, a famosa saga da Liga da Justiça escrita por Mark Waid. Em miúdos, é uma prova que os criadores por trás desse filme e do Universo DC nos cinemas são realmente leitores, quiçá fãs de quadrinhos e nutrem uma amor por esses personagens e suas histórias que transparecem nesse filme.

O Superman de Henry Cavill, infelizmente, é o elo fraco desse universo. O ator é muito fraco e parece ter decaído ainda mais em sua performance quando comparada ao Homem de Aço de 2013. Não me leve a mal, visualmente ele funciona. Há o físico, há o queixo e o cara ainda bota um medo danado quando acende aqueles olhos vermelhos. É um alienígena ameaçador de qualidade, mas no lado humano derrapa, e derrapa feio, derrapa rude. Suas cenas com Lois Lane, a sub-utilizada e grandiosa Amy Adams, são de certa forma o elemento chave que permeia toda a trama desse filme e falta um elemento crucial em todas elas, empatiaSuas cenas são sempre frias e burocráticas.

Se por um lado o personagem de Cavill azeda o filme, por outro temos um elenco muitíssimo bem escolhido com caracterizações super acertadas de seus personagens. Isso tem sido muito falado, mas Ben Affleck faz sim o Batman definitivo, explicitamente influencidao por suas contra-partes dos games da série Arkham e pelo desenho animado de Paul Dini dos anos 90. É um Batman que sabe equilibrar o realismo de Nolan com a suspensão da realidade dos quadrinhos e que casa perfeitamente com esse universo de Meta-Humanos que se descortina no horizonte. 

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Gal Gadot quase me fez ir as lágrimas. Sem brincadeira. Se havia qualquer dúvida quando àquela atriz de filmes de ação, quase desconhecida e raquítica, incorporando uma das personagens femininas mais fortes e emblemáticas de todos os tempos, as interrogações se dissiparam logo na primeira vez em que a vi de uniforme, e não estou falando da cena mostrada nos trailers em que ela se une aos dois paladinos da justiça para enfrentar uma ameaça, mas sim de uma referência antecipada ao seu filme solo. Gal consegue ser feminina e forte, ousada e respeitável, sensual e guerreira.

Eisenberg, o eterno dono do Facebook, no entanto, foi o que mais me surpreendeu. Aparentemente histrionico e cômico nos trailers, Lex se mostrou isso e muito mais, uma interpretação cheia de nuances, ajudada por diálogos e citações espertíssimas, contribuição certeira de Terrio, roteirista de Argo e de um carisma forte que relega Kevin Spacey e Gene Hackman ao esquecimento.

Holly Hunter faz bem seu papel burocrático de senadora questionadora do papel de Superman na sociedade e dá cor e sabor a uma das cenas mais inteligentes, hilárias e uma da grandes viradas do filme.

Deixo aqui também uma menção honrosa a Jeremy Irons. Seu Alfred é perfeito, porém coadjuvante de luxo, atuando solitário na Batcaverna a maior parte do tempo, mas encarnando o melhor de todas as versões do mordomo, com aspectos de sua versão da Terra Um dos quadrinhos, lançada a poucos anos pela DC Comics. Estou ansioso para ver muito mais dele em um filme solo do Morcegão, quem sabe com cenas de ação?

Por fim, não há como não mencionar as aparições dos demais heróis da DC Comics e a maneira esperta como eles foram introduzidos no filme. O Flash de Ezra Miller particularmente, foi o que mais me impressionou, visualmente parecido com o velocista do jogo Injustice, seus poderes são explorados de uma maneira mais próxima dos quadrinhos atuais, com muita faísca e dobras temporais. Aquaman tem uma breve cena e curiosamente o Cyborg, Victor Stone é quem tem a seqüência mais longa e interessante. Nada de Lanterna Verde até aqui, no entanto, para tristeza da Geral.

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Batman v Superman é marcante. Não é nem de longe um filme perfeito, mas consegue reforçar a marca mais relevante dos heróis DC no cinema, uma visão que começou a ser construída durante os Batmans de Chris Nolan, que foi mal aplicada em Man of Steel e que por fim parece ter chegado a um equilíbrio interessante e cheio de potencial aqui.

O melhor comentário que eu posso fazer para esse filme a essas alturas é esse: Saí com vontade de ver de novo e muito ansioso pelas próximas empreitadas da turma de Snyder. Que as bilheterias ajudem a manter e expandir esse momento e que eles continuem aprendendo com os erros e trazendo filmes cada vez melhores.

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