Top CnC – Os piores momentos da Mulher-Maravilha nos quadrinhos!

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Inspirado pelo ótimo novo filme do universo extendido da DC Comics nos cinemas, o CnC resolveu celebrar essa boa onda com um post especial que relembra os piores perrengues enfrentados pela Mulher Maravilha ao longo de seus 76 anos de história, nas mãos de péssimos criadores, desde que saiu das mãos de seu célebre e controverso criador, o psicólogo, advogado e inventor do teste que deu origem ao polígrafo, William Moulton Marston.

William sempre foi um homem a frente de seu tempo, multi-facetado em seus estudos, teve a coragem de viver um casamento “estendido” com duas mulheres em pleno anos quarenta e foi baseado na personalidade dessas mulheres que ele construiu a persona da Amazona. Impressionando com as oportunidades educativas proporcionadas pelo meio das HQs, Marston criou essa mulher extremamente feminina, liberal e muito forte, indo contra alguns dos arquétipos da época e subvertendo outros. Apenas para ilustrar o paradoxo de sua criação, Marston por um lado alegava que a mulher deveria dominar o mundo, mas em contra-partida defendia a submissividade da mulher como algo nobre, que deveriam ser sempre seres pacíficos e dóceis.

Esboço original da primeira Mulher Maravilha, com anotações manuais de seu criador William Moulton Marston. Relíquia!
Esboço original da primeira Mulher Maravilha, com anotações manuais de seu criador William Moulton Marston. Relíquia!

Esse flerte com o universo da dominação e das práticas sexuais de “bondage”, acabou marcando muito a Mulher-Maravilha nos seus primeiros anos de vida e fornecendo uma série de imagens, que hoje, são mais difíceis de assimilar. Com o tempo os criadores foram se livrando desses elementos, mas interpretações equivocadas e momentos constrangedores da personagem não foram exclusividade de uma década. Portanto vamos à lista dos piores momentos da personagem, em ordem cronológica:


 1941 – Ata-me se puder

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Ser atada e subjugada era o equivalente à kryptonita para a Diana primordial. Sendo mais específico, devido a uma tal de lei de Afrodite, se alguém unisse os braceletes de Diana, até então chamados de braceletes da submissão (sim!), eles ficariam colados e ela perderia seus super-poderes, sendo colocada em uma posição de total submissão. O bracelete é parte da composição da Mulher Maravilha desde sua primeira aparição em All Star Comics número 8, e foi inspirado em um acessório usado por uma das esposas de Marston, Olive Byrne.

Essa fraqueza da heroína perdurou por anos, até que a DC percebeu o quanto isso era errado e aposentou a idéia, porém uma série de imagerias, hoje perturbadoras, acabaram por se eternizar e foram revisitadas ao longo dos anos. Confira algumas:

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Uma curiosidade, os braceletes já foram descritos como sendo feitos de vários tipos de metais fictícios, dentre eles o Amazonium e o Feminum, claro!


 1942 – Secretária da Liga da Justiça

Recepcionada

Em All-Star Comics número 12, escrita pelo lendário Gardner Fox, a Maravilhosa é convidada para se juntar à Sociedade da Justiça ao som de “Ela é uma boa companheira, ninguém pode negar”, mas pra desempenhar o papel de secretária honorária do grupo. Sim, enquanto o Dr. Meia-Noite, Gavião-Negro e Átomo saiam para batalhar heroicamente por aí, Diana ficava para trás, na sede da Sociedade, anotando recados de Solomon Grundy e sempre de prontidão para alguma emergência com gatos ou pistas de alguma investigação que magicamente apareceriam por ali. Pra você ter uma idéia do sexismo da época, a identidade do Átomo era o incipiente All Pratt, um cara comum, sem super-poderes que vestia um cinto de halterofilismo como uniforme, mas era a guerreira amazona semi-deusa que conseguia rebater balas com os punhos quem ficava para trás.

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1961 – Uma criança do barulho

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De acordo com Wonder Woman número 124, na Terra 124.1, a tecnologia amazona é tão avançada que a Mulher Maravilha podia facilmente contatar versões alternativas dele mesma. Wonder Tot, batizada aqui no Brasil de Criança Maravilha, sim, quase um evento do Didi Mocó,  nada mais é do que reflexo de uma tentativa ridícula dos anos 60 de formar uma super família para cada um dos heróis principais da editora, tudo conseqüência de seu tempo e da caça às bruxas advindas do livro A Sedução do Inocente, que deu origem ao selo de autoridade que censurava os quadrinhos da época. A idéia aqui era estender o conceito da Família Marvel (SHAZAM), que também se aplicou a Superman e Batman. No caso da Maravilha, sua família era composta por Steve Trevor, a Rainha Hypolita, a Moça Maravilha e por fim a caçula Wonder Tot, que era uma versão “nenêza” da protagonista vinda de outra Terra. O problema é que isso dava um nó na mente é o fato de que a Mulher, a Moça e a Criança Maravilha eram todas a mesma pessoa em momentos diferentes da sua vida e elas se encontravam para viver aventuras da pesada em um mundo muito louco. Um conceito que não tinha como se sustentar a longo prazo e logo a DC catapultou essas personagens ao esquecimento.


1968 – Duas solteironas e um morcego

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Eu sou um fã ardoroso da Era de Prata dos quadrinhos. Não pela sua qualidade artística, tampouco pelas boas histórias. Não era o caso nem de um nem de outro, mas pelo grau de descrença que é preciso ter para sequer encontrar alguma lógica em suas histórias. As situações, os visuais e as narrativas eram extremamente absurdas, como se os criadores estivessem sob constante efeito de ópio e derivados. Essa trama da Maravilha com o Morcegão de Gotham é um bom exemplo. Batman está arquitetando um plano para proteger o elmo de ouro de Montezuma de ser roubado pelo vilão Cobra Venenosa, o Copperhead, que por conta de outras tretas se recolheu ao seu reduto. Nesse meio tempo, Mulher-Maravilha e Batgirl chegam a cidade e começam a escrever mensagens de amor para o Morcego (?), o que inicia uma discussão árdua que beira a violência, quando ambas são interrompidas pelo vigilante de Gotham, que propõe que ambas participem de um concurso televisionado para provar qual delas é digna do coração obscuro do herói (??). Nesse rebuliço, o Cobra sai de seu armário e acaba sendo capturado pelo Bátema. Sim, o embate das heroínas pelo seu amor era parte do plano infalível para forçar o vilão a reaparecer e assim capturá-lo (???). O que ele não contava, era que Bárbara e Diana iriam, de fato, acabar apaixonadas por ele, reiniciando a discussão do começo da história. Para então realmente provar o seu amor, as duas resolvem esconder as suas identidades secretas em algum lugar no parque de Gotham para que o herói a encontrasse, mas Cobra-Venenosa (ele não estava preso?) encontra a identidade da Amazona, a captura e Batman e Batgirl são obrigados a resgatá-la. No fim o vilão é preso, as duas heróinas se apaziguam e esclarecem que confundiram seus sentimentos e Batman acaba no cinco contra um.

O importante é notar o papel vergonhoso da maior super-heroína de todos os tempos, que aqui faz as vezes de isca de vilão bucha e de solteirona de reality show. Ah Era de Prata, como não louvar?


1968 – Diana Prince, a dona da boutique.

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A revista da Mulher-Maravilha estava em vias de ser cancelada no final da década de sessenta, devido a uma seqüência longa de histórias fracas e requentadas dos anos quarenta. Num último suspiro, que comercialmente acabou se provando um grande acerto e garantiu uma sobrevida necessária para a heroína até a sua recriação pós-Crise nas Infinitas Terras, seu status quo foi totalmente sacudido para fazê-la refletir o “zeitgeist” vigente. O problema é que essa virada transformou a personagem em outra. Diana perde seus poderes, vira uma modista dona de boutique e ganha um mentor chinês, que ela conhece casualmente na rua, para por fim se tornar uma agente secreta que só usa roupas brancas, bem discreta, além é claro de ter se tornado uma especialista em artes marciais.

Dennis O’Neill foi um dos responsáveis por essa reinvenção da personagem, então entende-se a influência oriental. Não entenda mal, a história era até divertida, quase um Mestre do Kung Fu versão feminina, lendo hoje em dia ainda é um retrato bem ilustrado do começo dos anos setenta, mas não faz jus ao legado da heroína.

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1993 – Atendente de restaurante Fast-Food

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Em Wonder Woman número 73, parte de uma fase onde somente as capas do gibi iluistradas por Brian Bolland prestavam, Diana é obrigada a procurar trabalho, acaba conseguindo emprego na Taco Whiz, uma rede de fast-food de comida mexicana e vira uma mulher obcecada por dinheiro. Como isso aconteceu é ainda mais bizarro. William Messner-Loebs, o mesmo escritor da fase da heroína ilustrada por Mike Deodato nos anos 90, assumiu os roteiros do gibi quando George Perez largou o osso de sua fase pós-Crise.

Pra começar chutando o balde, William sequestrou Diana, que foi considerada morta enquanto na verdade viajava pelo espaço sideral, mas quando retornou à Terra, descobriu que as Amazonas haviam deixado o seu mundo e que ela estava agora sem um teto para morar.

Tentando encontrar um trabalho em grandes corporações em meio à crise dos anos noventa, a Princesa de Themyscira se dá conta que o ofício de heroína não a preparou adequadamente para nenhum outro tipo de serviço, o que a leva, por fim a topar vender tacos.

Dois diálogos do gibi ilustram bem essa, digamos, história:

[pullquote align=”full” cite=”” link=”” color=”” class=”” size=”12″]“Eu podia estar ajudando pessoas, os pobres, os frágeis, mostrando às mulheres como elas podem ser fortes sem recorrer a violência, mas agora tudo o que eu consigo pensar é dinheiro, dinheiro, dinheiro e como conseguir um trabalho.”[/pullquote]

[pullquote align=”full” cite=”” link=”” color=”” class=”” size=”12″]“Se eu conseguisse um segundo trabalho, talvez noturno e comesse apenas duas refeições ao dia na Taco Whiz… e nunca comprasse nada, eu poderia poupar quase dois dólares por semana.”[/pullquote]

Por que ela não pediu um empréstimo a Bruce Wayne ou um abrigo na Sala da Justiça (ou onde quer que os heróis se reunissem naquela época) ainda é um mistério. Fato é que alum tempo depois, Diana não só estava feliz trabalhando lá, como ainda por cima fazia propaganda positiva da empresa:

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E você, lembra de alguma história bizarra da Maravilhosa? Está feliz com a interpretação atual dela nos cinemas? Deixe seus comentários e ajude-nos a resgatar ainda mais histórias escrotas da história das histórias em quadrinhos.

Abraço do Gordo!