Aquaman – Crítica sem Spoilers – E a DC… acertou?

“Eu quero assistir a esse filme novamente… no cinema!”

Considero esse o maior elogio que um filme possa receber: O fato de um expectador desejar gastar seu suado dinheirinho financiando uma sessão de entretenimento repetida diz muito sobre o objeto de divertimento. Fato é que cada minuto que passa, essa vontade só faz crescer em mim quando me recordo dos muitos momentos emblemáticos de Aquaman, o mais recente filme do Universo de Heróis da DC nos cinemas, capitaneado aqui por James Wan, natural da Malásia e diretor da série A Invocação do Mal e Velozes e Furiosos 7.

Entretenimento de alta qualidade pictórica, Aquaman não é o melhor filme de herói da sua vida. Em muitos momentos ele sofre até mesmo para ser um filme em suas atribuições mais básicas. Com um roteiro a quatro mãos, raso, confuso e mal engembrado, mais parecendo um daqueles trabalhos em grupo de colégio onde cada um escreve uma parte em sua casa e uma hora antes de entregar ao professor eles colam as parte da maneira que dá, sem qualquer cuidado com a integração, diálogos muitas vezes vergonhosos, uma trilha sonora esquizofrenica e atuações abaixo do aceitável de seu principal protagonista, uma nova tempestade se formava no horizonte dos escritórios da Warner, e o seu Universo compartilhado de super-heróis se preparava para levar mais um duro golpe. Mas eles não contavam com a astúcia de James Wan.

O diretor se dedicou por completo e claramente desenvolveu e dirigiu esse projeto como se fosse o último filme de sua vida. Talvez devido a essa situação limítrofe, suas qualidades e fraquezas estejam tão aparentes durante toda a exibição do filme, mas fato é que ele funciona. E funciona muito, quase o tempo todo. Há uma dinâmica muito peculiar enquanto assistimos a Aquaman: a cada cena cômica mal estruturada, diálogo esdrúxulo ou soluções clichês de desenvolvimento de história, eramos imediatamente arremessados em seqüências de ação ou batalhas intensas, extremamente bem dirigidas e bem-acabadas, ou mergulhávamos, literalmente, em um universo rico, criativo e desenvolvido com a melhor computação gráfica que Hollywood pode pagar. Ouso dizer que esse talvez seja o filme de super-herói com os melhores efeitos especiais já feito até hoje. Tudo, por mais absurdo, colorido, reluzente e impossível que seja, nos parece extremamente natural e muito, muito bonito. Em várias das cenas me vi hipnotizado com o espetáculo proporcionado por Wan e seus diretores de Arte, que surpreendentemente já assinaram filmes da Marvel como Thor Ragnarok e Homem de Ferro 3.

Não vou entrar nos detalhes da história, apesar dos trailers já a entregarem quase por completo. Aliás, o que acontece com os trailers de hoje em dia? Seria um bom tópico para um próximo post. Apesar de toda a sua puerilidade e simplismo, a trama acaba servindo aos propósitos do diretor de estabelecer um tipo de universo nunca antes explorado no cinema live-action, de fincar um pilar um pouco mais sólido que ajude a fundamentar o tão difamado DCEU e de apresentar Arthur e seus coadjuvantes para o grande público.

Os coadjuvantes aliás, são um show à parte. Mesmo com as piores linhas de diálogos em suas bocas, não deixam a peteca cair. Nicole Kidman é de longe a minha preferida, desde já faço votos por um filme solo de Atlanna. O Vulko de Willem Dafoe é um show a parte, mesmo tendo pouco espaço para brilhar e Patrick Wilson no papel do vilão principal, Orm, meio-irmão do protagonista, acerta o tom como poucos nessa galhofa deliciosa. Apesar das muitas reclamações, confesso que gostei de Amber Heard como Mera. Ela não é uma Meryl Streep, mas tampouco compromete o filme, ao contrário de Momoa. O ator havaiano esbanja carisma e força em todas as suas aparições ao vivo, mas que ele não consegue transmitir suas qualidades naturais de forma eficiente aos personagens da telona. Sem tempo de comédia e com expressões limitadas a três olhares e duas levantadas de sobrancelha, Jason acaba sendo um fardo que Wan teve que carregar devido às más escolhas do passado. No poster e nas cenas “splash-pages” de ação ele funciona muito bem, mas falha em qualquer em que o personagem dependa de alguma expressividade para sair do outro lado. Nesse primeiro filme não comprometeu o resultado final, pois Wan tinha muitas cartas na sua manga e um escopo gigantesco para abraçar, mas numa eventual seqüência isso pode ser destruidor.

Por fim, uma menção honrosa ao personagem interpretado pelo ator Yahya Abdul-Mateen II, que nos trouxe um vilão pobremente construído, com uma atuação caricata e forçada, mas cuja interpretação física e visual me fez amar uma das coisas que eu sempre detestei nos quadrinhos, o Arraia Negra e seu capacete improvável. Por algum motivo ele funciona nesse filme e funciona demais. A seqüência de perseguição nos telhados da Sicília com todos os seus “travellings” de camera e referências a Uncharted já entraram para a história do cinema de ação e dificilmente se apagarão de minha memória.

Em míudos, se minha palavra servir de algo, assista Aquaman sem medo de se divertir e se dê uma chance de curtir o filme em uma sala de cinema com projeção decente e de alta resolução. A Atlandida de Wan é memorável e desde ja um mundo ao qual anseio voltar o mais rápido possível.