Precisamos falar sobre Brandish

Se você nasceu antes do Bug do Milênio provavelmente viveu a grande febre das video-locadoras.

Na época que isso aqui era tudo mato e plataformas de streaming como Netflix não passavam de um distante sonho utópico, o jeito era recorrer ao famoso “locar duas fitas na sexta pra devolver segunda”.

“Porra Balão, mas esse texto não é sobre joguinhos?!” – você pergunta. Calma arrombado, estou chegando lá.

Este mesmo conceito se aplicava às locadoras de video-game. Como os preços dos jogos eram proibitivos (e não havia opção de download digital), o jeito era recorrer ao aluguel. O pequeno Balão saía do colégio às pressas nas sextas-feiras à tarde para conseguir os tão desejados joguinhos para deleitar-se no final de semana.

Sexta-feira, dia de alugar fita.

Eu sempre fui fã dos RPGs, e em meados dos anos 90, no auge da era 16 bits, os jRPGs reinavam absolutos. Games como Chrono Trigger e Final Fantasy III faziam a cabeça da molecadinha, e como conseqüência, eram disputadíssimos nas locadoras e não necessariamente estavam disponíveis quando queríamos. Isso nos obrigava a procurar novas opções, o que me levou a descobrir vários jogos bons como Illusion of Gaia, Lufia II e muitos outros. Mas volte e meia o tiro saía pela culatra e você pegava aquela bomba, aquele joguinho intragável que ou você jogava por pura obrigação, ou assumia que jogou dinheiro fora e ia procurar algo melhor pra fazer.

Brandish pra mim foi um desses jogos. Mas no mal sentido. Ele tinha tudo pra ser um jRPG responsa: na frente da caixa, um sujeito empunhando uma espada maior que ele, uma maguinha seminua e no fundo de tudo isso um dragão pra coroar a arte; no verso, screenshots do que parecia ser um clássico jRPG de ação. Nada de cair o queixo, mas parecia entretenimento honesto para um final de semana chuvoso.

A capa que enganou o Balão.

Aluguei. O jogo era injogável. Controles horríveis onde você virava a tela ao invés do personagem e tinha que usar uma espécie de cursor para fazer as ações (mesmo não tendo um mouse) tornavam a experiência sofrível em um dungeon crawler que poderia ser no máximo mediano. Larguei mão do jogo e fui fazer alguma outra coisa mais interessante, e Brandish ficou completamente esquecido em minha memória. Até agora.

Brandish para o Super Nintendo

Esses dias, estava discutindo com o Mamika no cafirst sobre os jRPGs da Falcom. Como estou em vias de zerar toda a octologia de Ys (post sobre a série em breve, aguardem) e ele está dando uma flertada com Trails in the Sky, acabou me despertando curiosidade de ir atrás dos demais jogos da produtora. Afinal, se ela é responsável por essas duas séries de responsa, os demais games dela devem ser bons também, não é verdade?

Pra minha surpresa, ao consultar o pai dos burros moderno (Wikipedia) sobre os games da Falcom vi um nome que estava há muito enterrado na minha mente. Isso mesmo, Brandish. Não apenas isso, vi que ele teve um remake pra PSP em 2009, intitulado Brandish: The Dark Revenant.

“Mas quem teve coragem de fazer remake dessa merda?!” – indaguei.

Eu vi que ele estava disponível para download digital no Vitinha. Baixei com um misto de curiosidade mórbida e masoquismo, tentando entender exatamente o que naquela porcaria justificaria um remake.

Comecei a jogar.

Brandish: The Dark Revenant para PSP.

Cerca de 30 horas depois, já havia zerado o modo principal e o Dela Mode (uma segunda campanha que libera depois que você termina a principal).

Mas que porra aconteceu nesses 20 e poucos anos? O jogo foi completamente refeito e passou de medíocre pra legal como num passe de mágica? Ou eu que não era “maduro” suficiente pra entendê-lo na época e agora que sou um tiozão do churrasco ele faz muito mais sentido? Na verdade um pouco de cada… mas para entender melhor, vamos voltar à criação do game há quase 30 anos.

Lançado originalmente em 1991 no Japão para NEC PC-9801 (um computador véio japorongo) e portado para o SNES apenas em 1994-1995, Brandish é um dungeon crawler que flui muito mais como um Eye of the Beholder (clássico de D&D para PCs) do que como um jRPG de ação. Isso explica muita coisa, desde os controles merda pra SNES (os controles são otimizados para mouse e teclado) até os gráficos datados.

Brandish 2 para NEC PC-98

Mas no Japão, o game até alcançou um relativo sucesso, garantindo 3 seqüências (todas para o NEC PC-98, apenas o segundo foi lançado também no SNES). E, apesar de algumas decisões de design duvidosas (essa história de virar a tela ao invés do personagem em um universo 2D é, no mínimo, confuso), o game é um dungeon crawler bem sólido, com 40 andares repletos de desafios, armadilhas e com aquela pegada meio “difícil-porém-justo” que está na moda novamente devido à popularidade da série Souls.

Em 3D, rotacionar a tela finalmente começou a fazer sentido.

Ele tem um passo bem mais lento que o ritmo frenético da maioria dos jRPGs. Você tem que andar com cautela e explorar cada canto do mapa atrás de armadilhas e segredos, remetendo muito mais à uma partida de RPG de mesa. Talvez seja devido à essa progressão lenta demais que o Balão pré-adolescente não tenha curtido o jogo.

Dungeon Crawling em toda sua glória.

No game, você é um sujeito chamado Ares, um aventureiro que é caçado por Dela Delon, uma feiticeira seminua e caçadora de recompensas. Em uma luta com sua nêmese, a terra acaba abrindo e os dois caem em um complexo sistema de dungeons (quem diabos sobrevive à uma queda de 40 andares?). Cabe a Ares escapar dos perigos e armadilhas, enquanto ainda é perseguido por Dela em 40 níveis do mais puro dungeon-crawling fun.

Dela Delon, a antagonista do jogo.

Na versão de PSP, depois que você zera ainda habilita o “Dela Mode”, uma campanha alternativa com foco na antagonista Dela. Apesar desta segunda campanha contar com apenas 10 andares, ela é muito mais focada nos puzzles e armadilhas do que no combate, e rende mais umas boas 10 horas de gameplay.

Enfim, é um post longo sobre um jogo que ninguém dá a mínima, mas eu acho que precisava desabafar e fazer justiça tardia para um game que execrei no passado. Quem sabe que outra pérola nós não vamos conseguir desenterrar de um passado longínquo, não é mesmo? Se você for um dos poucos felizes proprietários de um PS Vita como eu, é um bom game para pegar em promoção, e garante algumas boas horas de diversão (principalmente em um console portátil).

Até a próxima, seus putos!