Vamos jogar Ys?

Ys é uma série de jRPGs de ação desenvolvida pela Nihon Falcom que de maneira geral nunca caiu no gosto do público ocidental (como um Final Fantasy da vida), porém já está rolando no Japão desde 1987 e tem uma grande fan base por lá.

Cada jogo é uma aventura do protagonista Adol Christin (ou Adol, o Vermelho), narrado como se fossem um capítulo de seus diários. Isso é bem interessante, porque ao mesmo tempo em que as histórias são ligadas por cronologias, eventos e personagens, cada etapa das aventuras de Adol também é uma história fechada e independente (sim, você pode jogá-los em qualquer ordem, e só vai perder algumas referências menores).

A evolução de Adol: Ys 1 e 2 (Chronicles) / Ark of Napishtim / Oath in Felghana / SEVEN / Memories of Celceta e Lacrimosa of Dana

Curiosamente, o lançamento mais recente da série (se desconsiderarmos o IX, ainda inédito por aqui) foi também o maior sucesso comercial: Lacrimosa of Dana foi lançado em 2017 e foi sucesso de público e crítica, finalmente coroando a longeva série com seu devido reconhecimento.

O Balão, como é maria vai com as outras, ficou com muita vontade de jogar o Lacrimosa após ler as críticas. Porém, como ele possui TOC (ou só problemas mentais aleatórios mesmo), precisou jogar toda a heptalogia que culminou no oitavo jogo. Isso mesmo, zerei todos, todos, TODOS os jogos da série. Como a série de games é toda interligada, a cronologia não é linear e tem um histórico um pouco confuso de ports e remakes, vou mastigar tudo aqui pra quem tiver interesse em mergulhar no mundo de Ys que eu, particularmente, virei fã agora (era isso ou admitir que perdi mais de 100 pra zerar mais de 8 jogos que no final das contas nem curti).

A evolução de Adol (artwork): 1 e 2 / Oath in Felghana / Memories of Celceta / Ark of Napishtim / SEVEN / Lacrimosa of Dana / Monstrum Nox

Abaixo, um mini review de cada jogo, qual a data de lançamento e para quais plataformas estão disponíveis, e qual versão eu recomendo você jogar.

Ah, um detalhe importante sobre a série antes de começarmos: em suas primeiras encarnações (até o IV para ser mais preciso, com um breve hiato no III), o game contava com um controverso sistema de batalha que não possuía botão de atacar. Isso mesmo, você simplesmente “relava” no adversário pra causar dano… O problema é que se você “relasse” no ângulo errado quem tomava dano era você. Esse tipo de combate ficou conhecido como “bump system” e nem preciso dizer que ele não era nada eficiente. Felizmente nos games mais recentes e em alguns remakes (exceto os dois primeiros) esse sistema foi substituído por um botão de ataque e mecânicas mais complexas.

Ys I (Ancient Ys Vanished) / Ys II (Ancient Ys Vanished: The Final Chapter)

Lançado originalmente: 1987 (PC-8801)
Disponível em: PC-8801, PC-9801, X1, FM-7, MSX2, NES, Master System, TurboGrafx-CD, MS-DOS, Apple IIGS, X68000, Windows, Playstation 2, Nintendo DS, Playstation Portable, Android, iOS (Ufa!)
Versão que o Balão recomenda: Ys Chronicles 1 e 2 (Android / iOS)

Os dois primeiros games da série são os únicos que são uma continuação direta, por isso em várias encarnações e remakes eles são encapsulados como um jogo só. Cronologicamente também é a primeira aventura de Adol, e a trama se passa na ilha de Esteria e gira em torno da descoberta da misteriosa Terra de Ys, que dá nome à série. Ys era parte de Esteria até que um belo dia literalmente sumiu do mapa para selar um grande mal. Espere por muitos perrengues, dungeons, donzelas em apuros, reviravoltas, vilões megalomaníacos e demais clichês de jRPG.

Primeiro Ys para PC-88, em toda sua glória!

Ys I e II podem parecer simplistas demais para nossos padrões de hoje (principalmente porque os de ambos remakes foram os adaptados da maneira mais fiel aos originais). Mas ainda assim cada um deles garante cerca de 10 horas de diversão despretensiosa (e um belo nível de desafio em dificuldades mais elevadas). A trilha sonora, uma das marcas registradas da série, também é fantástica.

Ys Chronicles para Android, pela DotEMU.

Outra coisa que você pode ter percebido é que os dois primeiros games estão disponíveis para uma caralhada de plataformas diferentes, inclusive portáteis. Então porque recomendo a versão para celulares? Ora, isso é fácil. Primeiro, o preço. Eles foram portados como games separados pela DotEmu, e apesar do valor padrão ser R$ 13,99, você encontra eles facilmente em promoção por menos de 4 reais; Segundo, porque como falei, eles refizeram quase que literalmente os originais – e isso inclui o infame “bump system”, que é horrível em um joystick, mas funciona surpreendentemente bem em um touchpad (quanto menos botões, melhor); e terceiro, a portabilidade… como você não sai de casa sem seu celular, você pode literalmente jogar em qualquer lugar: fila do mercado, esperando o médico, cagando na firma…

Ys III (Wanderers from Ys / The Oath in Felghana)

Lançado originalmente: 1989 (PC-8801)
Disponível em: PC-8801, PC-9801, MSX2, NES, SNES, Genesis, TurboGrafx-CD, X68000, Playstation 2 (Wanderers from Ys); Playstation Portable, Windows / Steam (The Oath in Felghana)
Versão que o Balão recomenda: Ys The Oath in Felghana (PSP)

Ys III também teve sua capa “rótulo de catuaba” no Ocidente.

O terceiro game da série tentou surfar na onda do seu concorrente mais popular (Zelda), e mudou a visão de cima para uma visão lateral, como um jogo de plataforma (igual Zelda 2: Link’s Adventure). Isso obrigou a adição de um botão de “bater”, mas o resto da jogabilidade era praticamente a mesma, o que deixava o game meio desengonçado para um sidescroller. A história, por outro lado, amadureceu bastante e fugiu um pouco dos clichês de vilão querendo dominar o mundo, e passou a focar em trama política e traições.

Aquela mudança de jogabilidade que ninguém pediu.

Já mais recentemente, um remake de Ys III foi lançado para Windows (em 2005), PS2 e Playstation Portable (em 2010). O novo game foi modernizado usando o mesmo engine de Ark of Napishtim, e expandia tanto o gameplay quanto a história. Como usava um engine que já havia sido validado e refinado, e a história também é uma da favorita dos fãs, The Oath of Felghana é até hoje considerado um dos melhores games da série.

Graças ao engine de Napishtim, o game pode manter os elementos de side-scroller.

As versões de Steam e PSP são equivalentes, sendo que a de PC tem a vantagem óbvia de poder rodar em full HD; contudo, poder jogar cagando sempre é um tie-breaker, então ainda recomendo a de PSP.

Ys IV (The Dawn of Ys / Mask of the Sun / Memories of Celceta)

Lançado originalmente: The Dawn of Ys – PC Engine CD-ROM (1993); Mask of the Sun – SNES (1993)
Disponível em: The Dawn of Ys – PC Engine CD-ROM; Mask of the Sun – SNES, Playstation 2, Mobile; Memories of Celceta – PS Vita, Windows (Steam), Playstation 4
Versão que o Balão recomenda: Ys Memories of Celceta (PS Vita)

Aqui as coisas começam a ficar um pouco confusas… foram lançadas duas versões de Ys IV, e nenhuma delas pela Nihon Falcom que terceirizou sua produção: a Hudson Soft ficou encarregada da versão de PC Engine (The Dawn of Ys), enquanto a Tonkin House lançou a de Super Nintendo (Mask of the Sun). Embora tivessem a mesma premissa básica, os jogos eram essencialmente bem diferentes, e nenhum deles era considerado canon. Foi apenas recentemente, em 2012, que a Nihon Falcom lançou o remake intitulado Memories of Celceta para o PS Vita, que é considerado a “versão definitiva” de Ys IV.

Mask of the Sun voltou às raízes com a jogabilidade tradicional.
Enquanto Dawn of Ys foi além e usou e abusou do poder do CD-ROM do PC-Engine nas cutscenes.

O game junta elementos e personagens das histórias de Dawn of Ys e Mask of the Sun pra criar um dos maiores games da franquia até aqui. Como o próprio nome diz, o jogo se passa na região de Celceta (o que seria equivalente à Espanha no mundo real), e o que começa com o que parecia ser uma simples incursão de reconhecimento em uma floresta acaba revelando muito mais.

Memories of Celceta junta o melhor de Dawn of Ys e Mask of the Sun, e já tem aquele “gostinho” de nova geração.

Sendo um dos games mais recentes, ele já utiliza o engine inaugurado em Ys SEVEN e que permite alternar entre três personagens (você não controla mais apenas Adol), e cada um possui um tipo diferente de dano e ataques, o que dá mais dinamismo e variedade para o combate. A jogabilidade também foi bastante aprimorada e é uma das melhores da série.

Ys V (Kefin, Lost Kingdom of the Sands)

Lançado originalmente: SNES (1995)
Disponível em: SNES, Playstation 2
Versão que o Balão recomenda: SNES (tradução fan-made disponível)

O quinto jogo é o patinho feio da franquia. Apesar de finalmente renunciar de vez a “bump system” e implementar mecânicas mais tradicionais de RPG de ação (botões de ataque, bloqueio e pulo), o jogo recebeu uma recepção morna tanto do público quanto da crítica. Apesar de bons gráficos e jogabilidade, ele já veio no final da geração 16 bits, e ele possuía outro problema gravíssimo: além de curto ele era muito, mas MUUUUITO fácil. Isso não chegou a ser um problema para mim, já que estava na correria para zerar os demais jogos. Mas imagina você alugar ou comprar esse game lá em 95 só para descobrir que ele tinha umas 6 horas de duração e não oferecia desafio quase nenhum.

Nem eu…

Esse feedback negativo fez a Taito lançar o YS V: Expert no ano seguinte, que era basicamente o mesmo jogo mas com maior nível de dificuldade. Um outro remake foi lançado para o PS2 em 2006, mas esse também nunca chegou a ser lançado no ocidente. Em declarações à imprensa, a Nihon Falcom já deu a entender várias vezes que um novo remake do V está nos planos da empresa, mas sem pistas de como nem quando.

Ys V tem um remake pra PS2, mas ninguém se importa.

Ys VI (The Ark of Napishtim)

Lançado originalmente: Playstation Portable (2003)
Disponível em: Playstation Portable, PS2, Windows (Steam)
Versão que o Balão recomenda: Windows (Steam)

Quase 10 anos após YS V, a Nihon Falcom finalmente lança o sexto game da franquia, The Ark of Napishtim. Originalmente exclusivo para o PSP, o game foi um divisor de águas, e seu engine foi tão bem sucedido em trazer o mundod e Adol & cia para o 3D que foi usado em mais dois games (The Oath in Felghana e Origin).

A versatilidade do engine de Napishtim não apenas permitia o gameplay tradicional de um RPG de ação, como também verticalizava a jogabilidade: plataformas e jumping puzzles começaram a fazer parte do menu também.

Foi a partir desse game também que a série começou a ser localizada em inglês pela XSEED Games, o que deu mais abrangência e maior popularidade à série na terra do Tio Sam.

Pô Balão! Mas você não disse que jogar cagando sempre é melhor? Por que você recomendou a versão Windows / Steam? É verdade, porém lembre-se que a versão de PSP foi a primeira a utilizar o engine “Napishtim”, que foi refinada em Oath in Felghana e Origin. Então a versão “vanilla” do portátil ainda carecia de um pouco de refino. A de PC, em compensação, já está remasterizada e lindona.

Ys VII (SEVEN)

Lançado originalmente: Playstation Portable (2009)
Disponível em: Playstation Portable, Windows (Steam)
Versão que o Balão recomenda: Playstation Portable

O sétimo game da franquia (e batizado apenas de SEVEN mesmo) foi outro divisor de águas: se Ark of Napishtim foi o responsável por trazer Ys para o mundo 3D, SEVEN foi o que modernizou de vez a franquia, trazendo para a geração atual de games: seu engine foi usado até nas entradas mais recentes da série como Memories of Celceta ou mesmo o Lacrimosa of Dana.

Pela primeira vez o game permite controlar três personagens simultâneos, cada um com sua particularidade. Sistema que foi herdado nos games / remakes subsequentes da série. Inclusive Dogi, companheiro de longa data de Adol (desde Ys 1, pra ser mais preciso), finalmente se torna um personagem jogável.

O game é excelente, um dos melhores da série em minha humilde opinião, e tirou leite de pedra do PSP. Caso você não possua o portátil vale a pena investir na versão Steam, volte e meia por um precinho camarada em promoções.

Ys VIII (Lacrimosa of Dana)

Lançado originalmente: PS Vita (2017)
Disponível em: PS Vita, Playstation 4, Windows (Steam), Nintendo Switch
Versão que o Balão recomenda: PS Vita ou Switch

E finalmente chegamos ao grande ápice da série. Lacrimosa foi lançado originalmente apenas para o PS Vita, mas como o console nunca chegou a ser um grande sucesso comercial (injustamente, diga-se de passagem), obviamente requentaram a marmita para PS4, Windows e, mais recentemente, o Switch.

Adol está a caminho de sua próxima aventura a bordo do navio Lombardia quando ele é atacado por um monstro gigante que afunda o navio, e nosso herói acaba náufrago em uma ilha deserta junto com demais tripulantes e passageiros do navio. O que começa como uma jornada para resgatar sobreviventes e juntar recursos para construir um navio para fugir da ilha acaba revelando a história de uma civilização antiga, dinossauros (?!), e… ta-da! Uma força maior que pode acabar com o mundo como conhecemos.

Lacrimosa of Dana: Lindão

Lacrimosa junta todos os elementos que fizeram sucesso na franquia até aqui: combaté rápido, trilha sonora sensacional, exploração de um mapa aberto gigantesco, coleta de artefatos que habilitam novas habilidade e muitos puzzles para resolver. O resultado é uma obra-prima quase sem defeitos, e divertida do começo ao fim.

Mesmo partes do game que normalmente me fariam torcer o nariz (como parte de juntar recursos para a vila dos náufrago, mini-game de pescaria, entre outros) acontecem de maneira tão orgânica e simplificada que chegam até a ser prazerosas (eu ODEIO mini-games de pesca, e juntei todos os peixes do game sem nem perceber).

Vida de náufrago em RPG japonês é assim.

Para não dizer que o jogo não tem nenhum defeito, as “raids” que os monstros fazem à vila dos náufragos são repetitivas, e ficam efadonhas bem facilmente. E sempre aparecem em algum momento bem anti-climático da história.

A gangue reunida

É um jogo recomendadíssimo tanto para fãs de jRPGs como pra fãs apenas de RPGs ocidentais tradicionais, pois possui uma jogabilidade bem acessível e fluida sem muitas esquisitices de japonês. Estou recomendando as versões tanto do Vita como a do Switch) porque, apesar dos gráficos serem impressionantes para os portáteis, eles não são grandes coisas para um PS4 ou um PC.

Bônus: Ys Origin

Lançado originalmente: Windows (Steam) (2006/2012 – sim, levaram SEIS fucking years pra traduzir essa merda)
Disponível em: Windows (Steam), PS Vita, Xbox One, PS4
Versão que o Balão recomenda: PS Vita

Ys Origin é um prequel da série e se passa 700 anos antes do primeiro game. Então obviamente é o primeiro (e único) que não conta com Adol Christin como protagonista. Ao invés disso, temos dois personagens principais: Yunica Tovah e Hugo Fact (e um terceiro secreto, soltei spoiler mesmo foda-se). Quem conhece a lore do jogo também percebe que há algo de familiar nesses sobrenomes. O game é basicamente um dungeon crawler e se passa inteiramente dentro da Darm Tower, uma torre gigantesca construída pelos demônios para alcançar a Terra de Ys. Se você jogou Ys 1 também está ligado que esta torre é a última dungeon do jogo.

Conheço essa engine de algum lugar…

Origin foi o último a usar a engine “Napishtim”, e curiosamente foi lançado exclusivamente para o PC (e localizado em inglês apenas seis anos depois). Mas a parte legal é que a DotEMU, a mesma linda que lançou ports de Ys 1 e 2 para celular, também fez um port de Origin para o Vitinha, Xone e PS4!

Chefes imensos já viraram marca registrada da série.

Apesar de estar longe de ser um dos melhores da série, Ys Origin ainda é um RPG de ação divertidíssimo e, apesar de um tanto repetitivo (passar pela mesma dungeon imensa três vezes), cada personagem traz uma dimensão a mais, seja com história, seja com sua jogabilidade diferenciada. É um bom passatempo e é interessante conhecer mais o lore da terra de Ys, que estava meio que esquecida desde os primeiros games da série.

Ah! E, caso você possua interesse em jogar os jogos em ordem cronológica, a ordem é:

  • Ys Origin
  • Ys I / II (Ancient Ys Vanished)
  • Ys IV (Memories of Celceta)
  • Ys III (Oath in Felghana)
  • Ys V (Kefin, Lost Kingdom of the Sands)
  • Ys VIII (Lacrimosa of Dana)
  • Ys VI (The Ark of Napishtim)
  • Ys VII (SEVEN)
  • Ys IX (Monstrum Nox)

E aí, pronto pra botar a série em dia? Agora o negócio é esperar que a XSEED ou alguma distribuidora lance Ys IX Monstrum Nox em inglês!

Até a próxima!